Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

Brancos Estúpidos, Michael Moore, Temas e Debates, 301 páginas.

As pessoas que gostam de livros de geo-política e de ler autores como Chomsky, Petras, Ramonet ou Taibo, por citar apenas alguns nomes, vão achar não pouco de diferente na focagem e no estilo de Moore. Quem tenha visionado o documentário Bowling for Colombine, o mesmo trabalho que lhe valeu um Óscar, saberá de que estou a falar. A temática central é violência e o uso das armas nos EUA. No documentário não faltam dados abundantes com que tecer os fios argumentais mas há mais do que isso. Há também factos, mas temos também um humor corrosivo, pronto a ressumar no momento adequado e sem banalizar a história que se está a narrar. Inesquecível quando se introduz nas casas de cidadãos e cidadãs do Canadá para confirmar que, certeza, as suas moradas não estavam fechadas a sete chaves como nos EUA.

Brancos estúpidos patenteia este estilo mas num formato de página impressa. O alvo é o governo Bush da altura embora não deixe de lado o seu antecessor no cargo, Clinton, e, em geral os democratas de que afinal tiramos a conclusão de não serem uma alternativa lá muita alternativa. Em palavras do autor: Bill Clinton foi um dos melhores presidentes republicanos que tivemos; uma lista imensa de dados evidenciam a sentença.

Porém, a estrela é o Bush. O primeiro capítulo evidencia o golpe de estado que o colocou na presidência da primeira potência do mundo através de práticas como remover do recenseamento milhares de votantes negros e hispanos ou aceitar votos de militares chegados fora de prazo. Sobeja insinuar por quem costumam votar os uns e os outros. A seguir, centra-se no presidente e a sua ação de governo nos seus primeiros meses de mandado com uma comprida listagem de medidas anti-sociais que se poderiam utilizar nas aulas dos nossos liceus para exemplificar o que é Direita com maiúsculas (a maioria dos nossos escolares abandonam a educação obrigatória desconhecendo o que a direita e a esquerda é).

No tema racial é talvez onde desenvolva uma ironia demasiado alargada que o leva a certo paroxismo quando afirma, por exemplo, que só brancos foram responsáveis das grandes asneiras e que haveria que dar emprego só a negros e negras. Porém, alguns dos conselhos que dá aos condutores negros para evitar serem parados pela polícia são mesmo bacanas: “coloque uma boneca insuflável branca no lugar do passageiro (…) Os polícias vão pensar provavelmente que você é o motorista e vão-no deixar em paz”

São muitos os temas que enfrenta Moore como a ecologia, as relações homens-mulheres (quase todos os presidentes e vice-presidentes dos EUA foram homens, brancos e cristãos), a religião ou as prisões, mas sempre neste esquema de corrosão, enxurrada de dados e propostas de ação para reverter aspetos concretos da realidade que na verdade podem ser alterados desde que a cidadania não olhe para outro lado. Neste ponto, a cidadania americana e a galega não sejam talvez lá tão diferentes.

Valentim R. Fagim, presidente da Agal e professor de português.

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Autor: peganolivro

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