Pega no livro

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Materna doçura, de Possidónio Cachapa

“Sacha G. não chegou a rei da pornografia aos vinte anos, como se costuma dizer. Pelo contrário: tinha mais de trinta, um casamento arruinado e muitas dívidas, quando teve a ideia de se dedicar à Pornografia Maternal […] Logo, quando lhe apareceu esta ideia de filmar homens, a rodar nus, à volta do corpo lânguido e acolhedor das mães, não viu nisso nada de estranho. Afinal fora o que ele fizera nos trinta anos da sua existência: girar à volta do seio materno. Pareceu-lhe ser apenas a consagração do mais interdito dos interditos ou, se preferirem, a mais natural das coisas proibidas”

É assim que começa Materna Doçura, primeiro romance de Possidónio Cachapa.

Contra o que poda parecer não se trata de um livro sobre o incesto e sim sobre os vazios que provocam as mães quando desaparecem antes do previsto. E é por isto que Sacha G. fica no romance a preencher vazios, em especial com o Professor, uma personagem que se viu na obriga de adotar uma outra mãe, de tipo táctil, na criada preta Muganga apesar de ter uma mãe viva.

Não se trata de um livro denso, a exigir sacrifícios de qualquer tipo; polo contrário, é desses livros que alcançam a unanimidade entre as pessoas que o leem e que não nos larga logo que estamos presos entre as suas páginas. É desses livros que apontam ao coração e acertam em cheio e é por isso que namora a leitoras/es diversas/os porque no pano de fundo movimentam-se emoções universais.

É igualmente curiosa a sua concretização já que chegou ao seu fim mercê a uma bolsa estatal. O autor apresentara apenas os primeiros capítulos e foi selecionado entre mais de trezentos participantes. Talvez os membros do júri ficaram tão enlevados como ficamos nós e é por isso que o alentaram a finalizar aquela história que na altura era apenas um acervo de boas ideias o que nem sempre promete um desenlace feliz.

Materna Doçura é uma sucessão de pequenas histórias que nos alimentam, histórias que se enredam umas com as outras através de casualidades que por vezes atentam contra a verosimilhança mas nem nos importamos com isso, já que o nosso coração está entregue até chegarmos a um final o bastante aberto onde a nossa imaginação transita à vontade.

Valentim Rodrigues Fagim, presidente da AGAL e professor de português.

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Autor: peganolivro

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