Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

Fé de baptismo com Clarice ao fundo

João Lopes Facal (Clube Santengrácia, Compostela)

No dia vinte oito de Junho do 2008, vésperas da cimeira europeia e do transcendental partido final da euro-taça 2012 (não confundir com as euro taxas que é assunto um bocado mais delicado). Dois acontecimentos coincidentes em fim que marcaram os destinos da Espanha, foi o dia eleito pelo nosso clube de leitura em português para proceder ao seu baptismo. O clube ficava sem baptizar e os/as camaradas mais sensíveis clamavam por formalizar sem demora o sacramento. O trâmite do baptismo estava decerto um pouco atrasado, visto sermos, ou sentirmo-nos, um bocado precursores da leitura comunitária em língua portuguesa.

A modesta cerimónia teve lugar finalmente na sala de leitura da EOI de Santiago onde costumamos reunir-nos ultimamente. Estavam lá a Olaia –que véu a propósito da Corunha- a Láli, a Naza e a Sandra, o João, o Antão e também o capitão Campoi que véu de bicicleta como costuma. O resto faltava pelos contratempos da vida e da profissão ou pelo que for, que às vezes a gente não informa.

A responsabilidade do acto, várias vezes adiado, não admitia demora. Vínhamos reunindo-nos em forma intermitente quase desde o ano 2009 em que rematamos o nosso curso de português na EOI compostelana e corríamos grave risco de cair no inferno do anonimato, uma eventualidade imperdoável em cidade tão pródiga em baptistérios como a cidade do Santo Apóstolo amigo.

Quero adiantar que o nome finalmente elegido foi clube santengrácia, pela Santa Engrácia de Lisboa lá perto do Mercado da Ladra. O nome fora proposto por Ana Diaz que casualmente não estava presente no acto ainda que sim em coração como madrinha do evento. Há nomes com destino, nomes que não se esquecem, este é um e por isso foi eleito por maioria ampla a duas voltas, como na França.

Bom a expressão popular “é como as obras de Santa Engrácia...” serve para designar “aquilo que não tem fim” como sabe tudo português de raça e nação entre os que nos contámos. A designação não é sem motivo. A basílica lisboeta onde repousa Amália Rodrigues e algum outra figura menor como algum presidente da República, pelo que posso lembrar, foi promovida pela Infanta D. Maria, filha de Manuel I de Portugal no ano 1568, recomeçada em 1682, depois do temporal do ano anterior que deu com ela na ruína, e felizmente rematada 284 anos depois, em 1966. Não cumpriu os trezentos anos em obras porque Santo António não quis.

Fala-se da paciência chinesa, a dos portugueses não lhe vai muito atrás e por dizê-lo tudo, tampouco a dos espanhóis: aí estão “las obras del Escorial”. Os galegos não devemos por isso considerar-nos a menos. É verdade que temos perdido bastante tempo em reformas na Torre de Hércules, que vêm da antes do romanos, e na própria Catedral de Santiago que não colhia jeito, mas estas são histórias velhas que já ninguém lembra. A nossa obra no concurso de santengrácias que no mundo há é a Cidade da Cultura Fraga Iribarne, digna dos modelos anteriores e que confirma com certeza irrefutável que Galiza é também uma nação, digam o que disserem os espanhóis. Também não é sem motivo, obras de Santa Engrácia propriamente só fazem os estados imperiais e ai estamos também nós: o espanhol, o português e Fraga Iribarne.

Bem baptizado ficou o nosso clube e ponto. Algum companheiro avançou mesmo a semiótica do assunto: ler em português é trabalho de uma vida inteira. Ficamos a pensar um bocado.

Que ninguém tire a falsa sensação de que no clube faltaram ideias onomásticas, há muita experiência acumulada na nossa turma da EOI. Somos todos, por dizê-lo em breve gente de vocação tardia. As denominações descartadas foram numerosas e algumas mesmo brilhantes. Alguém propôs oovodapega como testemunho inequívoco de filiação com a rede galega de leitura A Pega no Livro. Outra ideia ia para o campo tecno: scq0509, repare-se no ar um tanto aeroportuário da denominação onde não faltava a referência aos anos que demarcam o curso da EOI onde tudo começou. Duas proposições mereceram também muita atenção pelo o espírito galego-com-certeza que as animava. Uma foi miúdograúdo que une duas das mais formosas palavras do idioma que nos irmana ao tempo que alude à índole das nossas escolhas de leitura: desde o simples conto –Civilização do Eça de Queiroz, por exemplo- até…bom até esse livro de leitura demorada e inesquecível como ainda temos de ler. Outra foi, falabarato, palavra muito especial e mesmo imprescindível para galegos e portugueses mas, um bocado excêntrica para brasileiros que preferem tagarela. Eles verão, eu não comparo. Ficava ainda bondelétrico, que une as duas maneiras de designar o veículo de tracção elétrica que galga pelas encostas lisboetas por brasileiros e portugueses, a maneira de prenda de amor partilhado dos aderentes do santengrácia à língua de Machado de Assis e de Eça. Não foi possível tanto nome, já foram passados os tempos de pôr muito nome às criancinhas. Estamos em crise, pelo menos na Galiza e em Portugal.

Esquecia o mais importante. O objecto da leitura no dia do baptismo privado do nosso clube -o baptismo solene está à espera de convocatória oportuna e lugar de celebração condigno, ha ideias- foi Laços de Família de Clarice Lispector. Uma imersão potente e inquietante no fundo labiríntico e dolorido do coração feminino. Santengrácia recomenda vivamente a sua leitura, A Clarice é já aderente honorária, além de testemunha muda do memorável evento.

Imagem

Anúncios

Autor: peganolivro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

Os comentários estão desativados.