Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

Já não sou Penélope, já não sou a que fica fiando e tecendo (Raquel)

O Último Cais, em Tuga-Lugo-lendo

A sessão de debate sobre o romance de Helena Marques foi nesta quarta-feira, 23 de janeiro. Ao romance foi atribuída uma pontuação de 8,08 / 10.Sem dúvida, uma aposta com uma muitas possibilidades de êxito…

Imagem

O Último Cais (1992) foi o primeiro romance de Helena Marques. A eles se seguiram A Deusa sentada (1994), Terceiras Pessoas (1998), Os Íbis Vermelhos da Guiana (2002) e o Bazar alemão (2010). Há que acrescentar a estes romances Ilhas contadas, um livro de contos ambientados em diversas ilhas.

As mulheres ocupam um lugar central na narrativa de Helena Marques. Outros temas recorrentes são as ilhas e a insularidade (nomeadamente da Madeira, mas não só), a transmissão da memória familiar ao longo de várias gerações, a permeabilidade entre diferentes culturas nos países marítimos, a narração e a literatura, e diversos eventos históricos marcantes.

A maneira de narrar da Helena torna a leitura envolvente, com frases longas que nos levam, quase sem percebermos, da voz da narradora às palavras e aos pensamentos das personagens. Terá algo que ver esta maneira de contar com a maneira de enfrentar o tempo nas ilhas?

O diálogo da nossa sessão centrou-se, em primeiro lugar, nas personagens femininas, como Raquel, a protagonista do romance, Maria Alexandrina, Luciana, Constança, e outras. Concordamos em que cada uma delas foge às convenções da sua época de uma maneira diferente. Surpreendeu-nos encontrar personagens femininas tão avançadas para a sua época, num romance ambientado principalmente na Madeira do século XIX.

A importância das criadas no livro também foi assinalada por várias das participantes no debate, assinalando-se que sem elas as protagonistas do romance não poderiam ter dado passo algum para uma certa emancipação. Por exemplo, para que a Maria Alexandrina estudasse medicina, foi-lhe exigida a companhia constante nas aulas da sua criada

Das personagens masculinas, Marcos é aquela que alcança um maior protagonismo no romance. De facto, o livro abre e encerra com ele – deixando às personagens femininas o espaço central da obra. Todos concordamos em que era uma figura apresentada sob uma luz positiva no livro, enquanto esposo e companheiro, primeiro da Raquel, e depois da Luciana, bem como pai da Clara.

Médico de profissão, Marcos mostra-se preocupado por questões como o avanço das técnicas contracetivas e as dores e riscos que as mulheres enfrentavam nos partos. Do ponto de vista político, Marcos empenha-se na luta contra o tráfico de escravos e mostra alguma simpatia pelo republicanismo da época, sendo porém partidário dos métodos pacíficos de mudança. E acredita por cima tudo no poder transformador da educação.

De maneira menos positiva são retratadas outras figuras como Frederico de Magalhães e Xavier, que por caminhos diferentes acabaram por trazer a desgraça às mulheres com que se envolveram.

Já quase encerrando a conversa, fomos falando das relações entre homens e mulheres no livro: felizes ou infelizes? Satisfatórias ou dececionantes? As opiniões eram diversas a este respeito, mas parece claro que a Helena Marques consegue transmitir a ideia de que a plenitude através do amor e da sexualidade é possível, apesar dos desfechos trágicos de muitos relacionamentos.

Para outra conversa tivemos que deixar um aprofundamento sobre outras ricas veias deste romance: a insularidade e as ilhas, as alusões à flora da Madeira, a maneira de narrar de Helena Marques, os eventos históricos referidos, e muito mais miolo impossível de se roer numa hora e meia de debate.

Anúncios

Autor: peganolivro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

Os comentários estão desativados.