Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

Uma leitura particular de um mestre em divagações

João Lopes Facal
Clube santengrácia, Compostela, IV 2013

Tivemos estoutro dia o primeiro encontro do ano do Clube santengrácia. A sede, generosamente cedida para a ocasião, foi desta vez a livraria Ciranda de Compostela onde um pode achar a melhor escolha de livros de temática feminista e galaico-portuguesa ou luso-brasileira, ou como gostem os senhores dizer. A obra que nos ocupou foi Esaú e Jacó do mestre Machado de Assis (1839-1908). Um clássico das letras brasileiras, fundador e primeiro presidente por aclamação da Academia Brasileira das Letras fundada lá no ano 1897.
Machado é um clássico e todo clássico requer um bocadinho de paciência antes de ele entregar o seu segredo. Segredo muito particular o de Machado; pobre de nascimento, autodidacta, jornalista, e observador impenitente de um Brasil adolescente ainda mas satisfeito já da sua qualidade de povo eleito e cadinho de raças e culturas: O mulato -branco e negro- o caboclo -branco e indígena- e outras secretas misturas que fizeram grande o país. Com uma consulta de duas senhoras brancas da boa sociedade -uma embaraçada e a sua irmã- a uma adivinha cabocla começa a história de Esaú e Jacó que era a nossa leitura.
Opinávamos que um clássico merece um certo respeito mas no caso de Machado mais do que respeito abertura ao jogo da ironia e a divagação. Machado gosta de trazer o leitor a pé dele para piscar-lhe um olho cúmplice e convertê-lo em co-autor. Olhe lá -pode dizer, por exemplo- a senhora não vai crer –Machado gosta de dirigir-se à leitora feminina- o que agora vai acontecer mas…
Machado amava às mulheres porque amou muito à sua esposa, Carolina, à qual lembrou num soneto que parece um ramo de flores delicadas:
“Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
(…)
Trago-te flores – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.”
Carolina era uma portuguesa do Porto culta e sensível, segundo dizem os entendidos, que ensinou a Machado a ler a grande literatura europeia e acabou por exercer de leal crítica literária do grande escritor.
Machado adora interromper as suas histórias para interpelar @ leitor. No capítulo XXVII (de apenas uns parágrafos) interrompe o fio da narração dos dois gémeos opostos e competidores desde antes de nascer para dar entrada à voz da leitora que pergunta se não será que quando os gémeos cheguem a adultos vão acabar por se apaixonar da mesma mulher. Machado não perde a calma: “O que a senhora deseja, amiga minha é chegar já ao capítulo dos amores que é o seu interesse particular nos livros (…) Francamente eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método. A insistência da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente”.
Outras vezes o narrador sente a obrigação de pedir desculpas por introduzir um salto temporal que interrompe o fio do relato. É o que acontece no capítulo XXII, que dura apenas um parágrafo: “Os estados de alma que de aqui nasceram davam matéria a um capítulo especial se eu não preferisse agora um salto a 1886. O salto é grande, mas o tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode não bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais subtil obra deste mundo, e acaso do outro”. Puro Machado.
A ironia e a tonalidade mais grata a Machado de Assis. O capítulo XL do romance, titulado Recuerdos -assim, em espanhol- narra um namorico do Conselheiro Aires –diplomata, céptico, utente de monóculo- com uma actriz de Caracas que cantava sevilhanas:
“-Que rumor é este, Carmen? perguntou ele entre duas carícias.
-Nao se assuste, amigo meu; é o governo que cai.
-Mas eu ouço exclamações
– Então é o governo que sobe”.
Os anos da madureza de Joaquim Machado de Assis foram de mudanças. No ano 1889 em que Machado cumpria os seus cinquenta, Brasil abolia a escravatura e mudava de Império a República mediante um golpe militar republicano liderado pelo general Deodoro da Fonseca. A República trouxe a bandeira mais eloquente que no mundo haja com um lema positivista no seu centro: “Ordem e Progresso”. O lema, que procede do filósofo social francês Auguste Comte, paira sobre uma constelação de estrelas que pretendem retratar o céu carioca na manhã de 15 de novembro de 1889 às doze horas siderais. Ciência astronómica e fé no progresso indefinido: uma constelação embriagadora que acompanhou os últimos anos do romancista de olho céptico e tolerante. A opinião de Machado sobre o cientismo positivista -ao estilo do Jules Verne para entender-nos- é bem visível num dos seus contos, “O alienista”, onde nos conta a paixão de um cientista da saúde mental por encerrar cada vez mais gente no seu manicómio por suspeita de desequilíbrio mental generalizado até levar-nos à conclusão de quem é o verdadeiro alienado. No nosso romance, o elegante diplomata Aires, que é o autêntico narrador da história de Esaú e Jacó, bem pode ser um protótipo de aqueles sisudos cavalheiros republicanos adeptos ao progresso e à alta cultura: “Isto feito, Aires meteu-se na cama, rezou uma ode a Horácio e fechou os olhos. Nem por isso dormiu. Tentou então uma página de Cervantes, outra de Erasmo, fechou novamente os olhos, até que dormiu”.
Publicado em 1904, Esaú e Jacó é o penúltimo romance de Machado de Assis, uma olhada lúcida e irónica carregada de ambiguidade. O romance da vida paralela e discrepante de Pedro e Paulo, filhos gémeos de Natividade e Agostinho Santos que nascem rivais em tudo. Paulo é impulsivo e republicano, Pedro dissimulado e conservador; um mesmo amor único e impossível acaba por uni-los e separá-los. Mas, como bem poderia dizer o próprio Machado: olhe cá amiga, eu não vou desvendar agora a história que é para ser lida se a senhora tiver vagar e gosto pelas reviravoltas e variedades da alma humana.

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