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Kalaallit Nunaat

Fran Maseda, de Lugo

Amada Sedna,

Escrevo­-te  esta  carta  para  contar­-te  como me sinto e porque  me tenho que afastar de ti  para  sempre.  O  caso é que não posso seguir assim, porque não suportarei ver a pessoa que amo  com  outro.  Sei  que  devo   aceitá-­lo,  mas  isso, queima-­me; e come­-me a alma  por dentro, pelo que devo partir.

Uma  vida  não  alcança  para  conhecer  os mistérios que se escondem no coração duma mulher,  mas  cinquenta  anos  são suficientes para  calar  as  manias  duma  pessoa. É por isso que sei perfeitamente  que te  encaminharás  em  direção  ao  nosso   quarto,  enquanto cantarolas uma melodia e os teus pés descalços se deslizam pelo chão de madeira de pino, incapaz de superar o  som  da  música,  de  dança,   certamente.  Lá  tirarás  gracilmente  os  puxadores  da  cómoda,  na qual  se  acha  a  tua  caixa  ametista  de  lembranças,  feita  e  pintada  pelas  tuas  mãos  etéreas.  Ao abri­-la fitarás ausente,  por  um  segundo,  o  horizonte  marinho pela janela e  depois abaixarás os teus  olhos  sob  o  conjunto  de  envelopes  velhos   e  amarelos,  para  a  seguir  desapertar  o  nó de seda azul  elétrico  que  os  envolve.  De  todos  eles,  escolherás  o  que  se  acha  em  primeiro lugar, puxando com meiguice das manuseadas folhas do seu interior.

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Embora  se  tenham  passado  várias  décadas  da  primeira  campanha do bacalhau, ainda lembro  bem  o  dia  em  que  eu  vi  a  filha  do  temido  ex­-campeão  dinamarquês  de  luta  livre, Jacob Olsen, por  trás  do  balcão  do  Kalaallit Nunaat.  Eu  era  pescador  verde,  também na vida,  fugido  dos  bairros  de  lata  do  Porto,  que  se  encontrava  agora  passando  um inovador Natal  nevado  na  ilha  maior  do mundo. Na  estalagem  e  com  uma  garrafa  de aguardente  na  mão,  tive  uma  visão  que  não sabia se  era  saída  dum  livro de geografia ou mais própria  do  efeito  do  álcool,  e  revelou­-se  ante  mim  uma  esquimó  de  nariz  chata  e  cumprida, avultadas  bochechas  vivas,  agasalhados  olhos  verdes,  produto  da  mistura,  e  esguia  figura, para  o  comum  da  sua  raça.  Era Sedna,  a  única  filha  do  Jacob Olsen.  Namorei­-me imediatamente  e  desde  então  adivinhei  que  lá  estava  o  meu  lar.  Usei  os   meses  que  restavam até  primavera   para  te  conquistar  e  finalmente  perder­me  para  sempre  entre  os  teus  beiços  e mergulhar­-me na terra nova do teu sexo.

Os  meus  colegas  comentaram  que  eu  estava  louco  pela  minha  decisão  de  ficar  mas nada  me  retinha  em  Portugal.  Os  começos  foram  duros e usava um velho dóris para  ganhar o meu  sustento  e  demonstrar-­lhe  ao  teu  pai  que eu era um homem digno de ti. Após a morte de Jacob, chegaram os tempos como encarregados da estalagem, os filhos…

Sedna,  fomos  muito  felizes  e  agora  não  sei  como  despedir­-me  de  ti,  não  sei como se diz  adeus,  como  se  fecha  uma  porta  e  se  esquece  tudo.  Não  posso  e  não  quero,  parece-­me muito  injusto  perder-­te  assim  desta  forma.  Mas  tenho  que  aprender  a  viver  com  isso.

Contudo,  o  medo  atinge­-me,  não  porque  ignore  como  estar  sem  ti,  se  não  porque  esta peçonhenta  enfermidade  apagar­-te-­á  da  minha  memória.  A  ti, minha aak, minha companheira de  vida,  minha  amiga, minha confidente, minha amante, o meu tudo. Por isso quero que tenhas mesmo  a  certeza,  antes  de  deixar­te  nas  mãos  dum  outro  eu  desmemoriado,  de  que  nunca nada jamais poderá apagar-­te do meu coração.

Sedna,  só me resta por pedir-­te que me lembres, que nós lembremos e que saibas que te  amei  profundamente,  até  à  extenuação,  para  além  do  esquecimento  e  estas  letras  de lágrimas que te deixo.

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Autor: peganolivro

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