Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

A pega pousou no ramo, mesmo ao pé de Castelão.

João Lopes Facal.

clube santengrácia de Compostela.

A pega no livro pousou desta vez na ramagem de Rianjo. Bom, o acontecimento merece uma breve explicação. O lugar elegido, tão carregado de memória literária e política, foi ocorrência do Ghanime, de quem senão? Quanto à ramagem, antes de nada deveríamos concordar em que a pega podia ter pousado em lugar mais apropriado se não haver razão suficiente para a escolha da ramagem. O grande cruzeiro em frente da Igreja paroquial de Rianjo seria, por exemplo, lugar ótimo para a pega pousar.

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Razão suficiente houve, foi a Monica Heloane quem sugeriu a ramagem como suporte adequado. Tinha que ser ela, brasileira, quer dizer criativa e esperta em toda coisa, estava no lugar certo quando a questão saltou. Foi numa reunião preparatória para o segundo encontro da rede de pegos leitores. Um companheiro, cujo nome não vou revelar, mas todos conhecem, amostrou discordância com o facto de baptizar de romagem os encontros que tiveram memorável estreia nas terras encantadas de Miranda. O companheiro sustinha, não sem motivo, que a pega não solicitara baptismo. O companheiro, escusado comentar, é um bocadinho laicista e pouco virado para coisas de devoção. Bom, foi nestas discussões quando a Monica tirou de lógica tropical e disse: e por que não ramagem? Afinal é onde as pegas costumam pousar e além do mais é a melhor imagem que acho da profusão da língua portuguesa, não é? A gente concordou sem necessidade de votação que tem o seu mérito porque qualificar um livro consome o seu bom tempo de debate e discussão. Afinal as boas ideias vendem sós. A Monica, para quem a não conheça, já coordenou o clube de leitura do Ângelo Casal e pelo que sabemos os participantes têm saudades dela. Daqui esperamos que volte, a ramagem sempre gostou do sotaque brasileiro.

O dia da ramagem rianjeira foi especial embora diferente daquele de 19 de setembro de 2012 em que a pega nos levou a Bretonha. Quem quiser pormenores que prema onde deve[1]. A pega acabou pousando como dizíamos na ramagem de Rianjo; foi em 20 de outubro de 2013, quinto ano da crise que cantou a Deolinda[2]. A pega vestia de cores para a ocasião porque assim quis a Andrea, e fez bem.

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De manhã, roteiro literário pela pátria de Manoel António, Rafael Dieste e Castelão. Todas na Rua de Abaixo o que quer dizer que há também a de arriba.

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Pela tarde, depois da refeição grande sessão de alta cultura festiva no Colégio Brea Segade de Taragonha. Manhã e tarde são para lembrar, mas, primeiro o primeiro, comecemos pelo jantar. Não havia marcada convocatória coletiva para a refeição -afinal Rianjo é uma grande urbe, não como a Bretonha, e cada um se mexe como estimar oportuno, igual que em Nova Iorque- assim que o pego que lhes fala apanhou via e foi dar a O Taverneiro, lá no porto de Rianjo, para papar uma empada de berbigões em massa de milho que lhe recomendara um gajo indígena. A empada estava competente, mas um bocadinho crua. A companhia foi seleta porque contou com o companheiro aquele que não considerava bem assim confundir encontros com romagens e com a sua companheira com quem este pego gosta de conversar. Senhor Taverneiro, na próxima vez deixe um bocadinho mais de tempo a empada ao forno e não sirva tão frio o tinto que a acompanha que corre risco de parecer cerveja e isso a um vinho não se lhe faz.

No roteiro matutino tivemos um guia de mérito: o alcaide da vila, Adolfo Moinhos. Paragem na casa museu de Manuel António com recitado à saída. Bom, o Manuel António era um dândi deduzimos todos e ademais passou a vida sonhando mares. Mares de modernidades. Os barcos sonhados lá estão em fotografias de época e maquetes. Os seus amigos lá estão também pelas paredes. E vá amigos, meus amigos. Uma dedicatória de Rafael Dieste ao poeta marinheiro que ali pudemos ver diz: “A Manuel António de quem ainda não sabe por que é secretamente um irmão”. Paragem saudosa depois perante a casa onde Castelão morou. O mau fado quer que o coração da Galiza não tenha hoje ainda um lugar doméstico para a recordação. Os ventos da guerra e os azares familiares não deixaram mais nada para a memória que um punhado de “pó caladinho” -fala aqui o Diaz Castro- no túmulo de São Domingos de Bonaval. Lembramos o cantor da Alba de Glória improvisando umas palavras quaisquer diante da porta trancada da casa onde morou. Nova paragem, agora diante da casa do Dieste. Aqui sim foi inevitável a leitura pública de “Sobre a morte de Bieito” que nos segue fascinando na sua meia morte e que teria adorado conhecer esse subtil caçador de fantasmas vitorianos que foi M. R. James. Demoramos um bocado a pé do cruzeiro que preside a praça da Igreja; Adolfo Moinhos fez o relato. Alcaides que façam falar as pedras da sua vila não há muitos. O senhor Moinhos merece o apoio com que conta, amar deve vir sempre antes de governar e mesmo pode um bom substituto. Infelizmente não abundam os bons amadores como também não os bons regedores. Não sei que opinará a Deolinda disto.

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Já na tarde, simpósio cultural. O primeiro oficiante José Luis Orjais, que é musicólogo de cravo bem temperado apresentou à concorrência as suas recolhas musicais em clave rianjeira e portucalense. O que começa com música mal não pode terminar. É aqui onde entram o Carlos Quiroga com o crânio na mão como o Hamlet, e o Xurxo Souto e o Quico Cadaval com a sua língua de palmo e meio.

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E depois debate alargado com recomendações várias de leituras e propósitos provindos dos diversos ninhos de pega que por aí há. Não som fáceis de resumir as intervenções do Souto e o Cadaval, nisso terão que me dar razão. Contudo não posso por menos de aplaudir à vontade uma proposição não de lei apresentada polo Quico junto com o reconhecimento de um facto que sempre se tem ocultado e finalmente o Quico desvendou. A proposição foi a de mudar a denominação de Castro Barbudo que senhoreia a vila de Rianjo pola de Fidel Castro, afinal galego como nós e a cujo nome aludia o castro embora houvesse de ser ocultado por motivos de segurança numa vila que tem problemas sobrados como para inventar-lhe mais. O reconhecimento foi mais emocionante ainda para mim. O Quico desvendou diante de todos o inconfessado segredo que as agências de turismo brasileiras mantinham bem oculto: Copacabana é unha simples cópia, engraçada mas afinal pobre, do cenário formado polo Monte das Passareiras e a praia de Carnota, lá na minha ria de Corcubiom. Pura justiça, os aborígenes já o suspeitávamos, mas não houve coragem. Copiam tudo, uma desgraça, mas afinal as coisas sempre vão ao rego.

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