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Axilas & Outras Histórias Indecorosas, de Rubém Fonseca

Aproveitei a noite anterior a uma viagem da EOI Compostela a Monção para ler este livro do Rubém Fonseca – estava mesmo com medo de ficar adormecido e perder o autocarro.

Axilas & Outras Histórias Indecorosas (2011) foi recentemente publicado em Portugal pela Sextante Editora, bem como outros títulos recentes do escritor brasileiro. Eu peguei o livro emprestado da biblioteca Ângelo Casal, onde já o depositei novamente. Lá podem encontrar outras obras dele, como o magnífico A confraria dos espadas.

Para quem não ouviu falar do Rubém Fonseca, ele é conhecido enquanto mestre do género policial em língua portuguesa. Ele próprio trabalhou como polícia em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Posteriormente foi professor de Psicologia na Fundação Getúlio Vargas.

Rubém Fonseca começou a escrever em idade tardia, sendo o primeiro romance de 1973 (O caso Morel). Em 2003 recebeu o Prémio Camões. Com 89 anos de idade, continua a escrever a bom ritmo. Nas suas obras transparecem as influências da literatura norteamericana, nomeadamente do género negro, e também do cinema. Ora, ele criou um estilo bem próprio, que acabou por influir em muitos autores do género, como a romancista brasileira Patrícia Melo.

Vamos então aos contos do Axilas, que se vai lendo em ziguezague: de algum rasto de compaixão à muita crueldade; da crueldade ao absurdo; do absurdo acelerado ao riso; do riso à vontade de fugir através da leitura; e sempre com Instituto de Medicina Legal ao fim do caminho – eis como as palavras do Rubém Fonseca ultrapassam o previsível, como os carros que ultrapassam de faixa em faixa na Avenida Brasil do Rio de Janeiro.

No conto que dá nome à coleção, “Axilas”, uma paixão por essa parte do corpo leva o protagonista a perpetrar o impensável. Na abertura da história, o narrador compara a sua contemplação de um braço com a que teria feito o seu bisavô:

   Eu ainda não sabia o seu nome, que depois descobri ser Maria Pia. Ela já estava sentada quando vi os seus braços, braços finos, que para o meu bisavô não causariam o menor interesse, ele provavelmente os acharia feios. Além do mais, Maria Pia usava uma manga cavada e os braços estavam totalmente desnudos. Meu bisavô gostaria que ela usasse mangas curtas meio palmo abaixo do ombro e que seus braços fossem cheios do jeito que Machado de Assis descreve no conto “Uns braços”. Maria Pia era fina, toda ela, eu sabia, desde o início, vendo-lhe apenas os braços. E quando ela deu-lhes movimento, pude ver parte da sua axila.

    A axila da mulher tem uma beleza misteriosamente inefável que nenhuma outra parte do corpo feminino possui. A axila, além de atraente, é poética.”

A axila leva-nos até ao surpreendente fim do conto, que aqui não vou desvendar.

O que não posso esconder é a permanente presença da morte neste romance, apto para ser lido de rabecão a caminho da morgue: isso sim, sempre a seguir a alguma noite de intensa e pomposa atividade erótica.

Ao contrário do que acontece noutros livros do género, com Rubém Fonseca vamos alternando o ponto de vista do tira (policial) e do criminoso, sem que nunca saibamos ao certo que viragem surpreendente vai acontecer na história. Assim decorre a história “Janela sem curtina”, onde assistimos ao encontro de um cruciverbalista e uma dubladora

Há coisas que acontecem a esmo, sem motivo ou explicação. O certo é que encontrei Alice novamente. Morávamos no mesmo prédio há anos e agora encontrávamo-nos duas vezes num curto espaço de tempo. 

O mundo que se mostra nestes contos não é adocicado, e o que vem à tona é uma sociedade em plena descomposição moral. Os criminosos agem com mais serenidade do que paixão, misturando o crime com pensamentos que vão da sexualidade frontal à literatura e filosofia, sem que falte o sentido do humor. Ainda no mesmo “Janela sem curtina”.

Preciso falar com você, me disse.

Você gosta de miolos?

Farei miolos hoje para o jantar, você quer ir jantar comigo, ela perguntou?

Adoro miolos, claro que vou, a que horas, senhora dubladora?

* (Dobragem ou dublagem é no Brasil o que em Portugal é legendagem)

E o pano de fundo?

Para recordar que o cenário em que as histórias decorrem não é propriamente idílico, Rubém Fonseca deixa-nos pequenas engenhocas verbais como esta:

Deitei-me depois das quatro, se estivesse na roça os galos já estariam cantando, mas só ouvia o barulho do caminhão da prefeitura recolhendo o lixo da rua, e o baque surdo das caixas plásticas de detritos sendo despejados num local onde eram triturados por roldanas metálicas giratórias. (Página 34)

O Rui Zink dá no alvo ao comparar as frases do R.F. com rajadas curtas de bala, e ao pôr em destaque o facto de ele ser um grande estilista.

E não quero adiantar muito mais do livro. Deixo-vos, sim, com o Conto “Livre-Alvedrio”, porventura aquele de que mais gostei, a aonde chegam ecos da origem portuguesa do próprio autor:

Uma coisa que eu não suporto é me perguntarem: “e porquê você entrou para a polícia”? Dou as respostas mais esdrúxulas, “porque gosto de estrelas” (não olho para o céu, e não vejo estrelas há mais de vinte anos), “porque gosto de banana frita” (odeio), “porque meus pais eram portugueses”.

Essa última resposta tem fundamento, mas a resposta fica para depois, talvez.

Para depois, talvez. Como não podia ser doutra forma, neste mestre do conto.

Veja-se:

Entrega de um prémio a Rubém Fonseca em Portugal.

Vídeo do Rui Zink sobre o livro A grande arte de Rubém Fonseca, que o marcou.

Algum vocabulário brasileiro que aparece no livro:

A porta do carona de um carro é a do acompanhante que vai ao pé do motorista. Pegar carona e dar carona é o mesmo no Brasil do que pedir e dar boleia em Portugal, isto é, transportar alguém de maneira gratuita num carro. A origem é a palavra espanhola carona, uma cobertura de couro que se costumava pôr cima da sela do cavalo.

Um apartamento de cobertura como o do conto Paixão, é, segundo o dicionário Michaelis,  um Apartamento do último andar de um edifício que possui um grande terraço na laje de cobertura.

Diz-se nesse mesmo conto: Mas eu não ia obedecer aquele intolerável ucasse da Nely. “Ucasse” é uma ordem ou decisão dogmática e autoritária. A origem da palavra é nuns antigos decretos dos czares da Rússia.

No conto “Intolerância”, depois de uma cena em que o narrador e a Gisleine andam a enxugar os pratos, o narrador diz que a bunda dela foi para o beleléu: beleléu é um lugar muito distante – neste contexto o significado seria próximo de sumir, desaparecer. O que a palavra bunda significa, prefiro que vocês próprios pesquisem.

No mesmo conto, diz-se: eu ia ter que dar o bilhete azul para a Diana. Dar o bilhete azul é despedir, ou demitir alguém.

Encher o saco de alguém é chatear, aborrecer alguém.

De maneira recorrente aparece a palavra macete, derivada de maço:

mas eu não podia repetir aquele macete, tinha que inventar outro…

O dicionário Michaelis define a expressão como: Chave de solução para charada ou situação cujos termos se desconhecem. Recurso astucioso para se fazer ou obter algo.

O xadrez é a prisão ou posto policial. O tira é coloquialmente o polícia (Pt), ou policial (Br).

E um penhoar desabotoado como o de Dona Lúcia (“O vendedor de livros”) é mais ou menos o mesmo que um robe em Portugal. Podem procurar imagens no Google.

Isso me parece papo furado: um “papo furado” é uma mentira ou conversa sem fundamento.

Uma rua grã-fina é uma rua onde moram pessoas ricas, chiques. Ao contrário, um(a) pé-rapada é uma pessoa sem condições, pobre. As duas expressões aparecem no livro.

Joseph Ghanime escreveu esta resenha

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Autor: peganolivro

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