Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

Fábula do terror quotidiano

(Na sexta feira 14 de Março, reuniram-se os membros do clube de leitura «santengracia» na livraria ciranda de Compostela e debateram sobre a leitura do romance «A Instalação do Medo» de Rui Zink. Dous membros do Clube, Sara Paz e João Facal compartem com os clubes da pega-no-livro os sus comentários sobre o livro).

O medo, logo de ser instalado, tende a converter-se em doença crónica, altamente contagiosa também. Prende nas pregas mais íntimas do subconsciente e inicia daí um labor destrutivo sobre a capacidade de discernir, de reagir, de sobrepormo-nos. O medo tem algo de vírus do nosso sistema informático íntimo: modifica o padrom interpretativo, distorce os sinais de alerta e reacçom, emite sinais errados. Chegado a um ponto, o sistema colapsa e passa a modo de suspensom ou desconexom. O terror cósmico, religioso, político, abalárom o berço humano. O económico é a versom actualizada que a nós se nos oferece.
O terror contaminante prende nas sociedades e empurra-as à submissom, ao aforro compulsivo, á reclusom na privacidade, ao ódio ao diferente -o imigrante ou simplesmente o desconhecido- ao voto cativo e servil, ao abandono da ágora pública. Pensamos agora na Europa, na nossa sociedade do risco, permanentemente instalada na expectativa da catástrofe iminente descrita por Ulrich Beck. Pensamos na Europa do Sul, essa categoria política emergente para nomear insolidariedade, indefensom, empobrecimento, medo e fatalismo. A demissom do direito a interpelar o poder e a clausura de todo capacidade projectiva som os seus frutos envenenados. As razons dos damnificados, desprovidas de qualquer perspectiva de mudança, revestem-se de vácua estridência, de impotência.
Se o futuro é o presente som incertos, qualquer um é bom para gerir o temor colectivo e a inanidade cívica: Mariano Rajoy, Passos Coelho, Durão Barroso, por exemplo, chegam e sobram. Dirigir a sociedade comporta a obriga moral de se dirigir a ela, mas, quando o discurso público se reduz a tatejar as consignas da autoridade competente é que chegou a hora dos porta-vozes da baixa qualificaçom. Merkiavelo é o nome que lhe dá Ulrich Beck à autoridade competente embora sejamos conscientes que há mais e mais perigosa também. Os funcionários instaladores do medo que nos tutelam carecem de memória e nem podem imaginar que os pais fundadores de Europa: Alcide de Gasperi (triestino), Robert Schumann (francês de estirpe alemã), Konrad Adenauer (bávaro), três europeios periféricos portanto, falavam entre eles em alemám. Era quando a Europa sabia quem era Europa; agora abonda com a basic english, o idioma por defeito dos manuais de instrucçons, que os funcionários instaladores adoram.
Rui Zink, Lisboa, 1961 -que “escreve livros, dá aulas, imagina coisas”, como ele mesmo se descreve- vem de dar à luz umha inquietante parábola do insidioso desespero quotidiano que foi tomando posse das nossas moradas sem nós percebermos. Um autêntico “hóspede inconvidado” como aquele o que Pessoa percebia no seu destino. A fábula de Zink, A instalação do medo , é um relato escrito com a fria precisom cirúrgica e sentido do humor que o reconto do inevitável requer. Kafka está muito próximo. A fábula do Zink nom prescinde mesmo de um breve apêndice final justificativo das suas fontes documentais: as manchetes dos informativos diários ou os arquétipos de Lovecraft, afinal duas fontes mais próximas do que se poda suspeitar.
A artefacto do medo que os agentes da autoridade se empenham em instalar navega por títulos em destaque tirados da imprensa misturados por essas inquietantes imagens que, como avelaínhas nocturnas, nutrem os nossos pesadelos. A história do Rui Zink tem o ritmo inexorável da desgraça inevitável e a fria lógica burocrática do medo habitual e socializado. É de nós de quem fala a história.
Assistim por acaso ou providência à apresentaçom da Instalaçom de Rui Zink. Foi na Aula Magna da Faculdade de Filologia. O acto véu precedido por um breve simulacro teatral do relato a cargo do grupo viguês do Instituto Camões. Toma agora a palavra o Rui Zink: “Se eu fosse um rapazito novo ia mijar diante da Assembleia da República, ou mesmo diante da mansão do Primeiro Ministro, mas, com já fiz os cinquenta decidi escrever umha história”. Estamos diante de um amante da palavra livre. “A vida é tão rara”, cantava o Osvaldo Lenine Macedo Pimentel, Lenine para os amigos . “A vida é sempre muito mais do que a literatura” afirma convicto o Rui Zink. O escritor -proclama depois perante a audiência da Aula Magna- tem a ineludível obriga de exercitar precisom e clareza; a ambiguidade e a liberdade interpretativa som um atributo do leitor. É umha declaraçom de respeito ao observador anónimo, ao leitor, cuja vida o escritor nem pode suspeitar e que lhe permite às vezes entender a história melhor do que o próprio autor. A vida é muito mais.
Fai troça o Rui Zink do seu ofício: “eu gostaria ser convidado para as delegaçons culturais organizadas, mas é habitual que se esqueçam de mim”. Enumera depois amizades, mestres do olhar. Entre eles um amigo comum, Alberto Pimenta. Topei com Alberto Pimenta num canto da livraria Abraxas -que já nom existe- lá estava o seu: Discurso sobre o filho-da-puta em versom castelhana que ainda cheguei a tempo de partilhar com a querida decadência humana do Luís Marinho pouco antes de ele morrer. Há pouco, o livrinho do Pimenta fijo-se o encontradiço comigo noutro canto, desta vez na livraria Centésima Página de Braga. O livro, por motivos que desconheço, anda atrás da minha pista. Ignoro as razons, a vida é rara. Pimenta, especialista em detecçom das fissuras nos muros do viver acompanha discretamente a fabulaçom do Zink até o mesmo final em que se revela tal qual é. O Corolário que fecha A instalação do medo vem presidido por umha cita do Pimenta: “Dizes, é necessário construir o futuro. Agora percebo por que afundas o presente. Para instalar os alicerces.” O poeta experimentalista cochicha ao autor o argumento da conspiraçom diária.
A fábula é transparente embora os instaladores por conta de outrem nem cheguem a suspeitar o desígnio oculto que move os seus procedimentos. Construir o futuro sacrificando o presente, endireitar o torto, frear as más tendências da nossa natureza torcida em nome do futuro perfeito ou aperfeiçoado. Quem está legitimado para marcar o rumo colectivo senom aquele que detém o divino atributo da omnipotência, da maioria absoluta, do desígnio manifesto revelado pola raça, a classe ou, simplesmente, polo amo?
Os protocolos de instalaçom do medo som precisos, sem equívocos, embora requeiram umha mínima colaboraçom da parte do sujeito passivo. Podem advir percalços, com certeza, nem sempre os ritos de purificaçom alcançam sucesso. O século XX confirma o risco de fracaso dos futuros definitivos instalados mediante estado de sítio de indeterminada duraçom. O Rui Zink nom esquece tal eventualidade no relato. O terror é imprevisível e caprichoso por natureza e o relato do Zink nom esquece incluir os seus trasacordos de última hora.
Joám Lopes Facal

1 Rui Zink, 2012: A instalação do medo, Teodolito, Edições Afrontamento.
2 http://letras.com/lenine/47001/
3 Alberto Pimenta, 2010: Discurso sobre o filho-da-puta, 7 Nós, Porto.

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