Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

A instalaçao do medo, Rui Zink.

MAIS UMA NOVA CONTRIBUIÇÃO DO CLUBE SANTENGRACIA A RESPEITO DO ÚLTIMO LIVRO QUE LERAM E FOI TEMA DE DEBATE NA REUNIÃO QUE CELEBRARAM NO DIA 14 DE ESTE MÊS DE MARÇO. NESTA OCASIÃO É A ANA MOSQUERA CUJAS OPINIÕES PODEM LER A CONTINUAÇÃO:

Eu gostei desta obra porque nela vi refletida a situaçao atual, a manipulaçao do poder que quer submeter a população através do mecanismo do medo. A indefensão das pessoas da nossa sociedade, que somos manipuladas e atacadas pelo monstro. De uma forma clara e simples, por meio de diálogos didácticos e fábulas exemplificadoras, o autor expõe tudo aquilo com o que estão a bombardear os meios de comunicação, e além disso explicita de forma crua o que sabemos que está por trás (Na ONU, o horror torna-se lógica pura, raciocínio simples: por vezes é preciso matar algumas pessoas (alguns milhões de pessoas, coisa pouca) para salvar a humanidade). Nós somos as vítimas desta crise provocada pelos mercados, e os poderes políticos estão ao seu serviço. Não só somos as vítimas, senão que também temos que assumir as culpabilidades (Temos vivido acima das nossas possibilidades). Tudo isto que provoca a nossa indignação. Nós somos os indignados.

O título do romance cria um horizonte de expectativas confirmadas desde que começamos a ler, no mesmo início:
A mulher está nua (…) quando tocam a campainha
O autor apresenta um ser indefenso, uma mulher nua e descalça. Nem nome tem. Podia ser qualquer uma.
Depois descobrimos que provavelmente é uma mãe, há uma criança a dormir no quarto. Outro ser ainda mais indefeso, que ela deve proteger:
Acorda-o. Põe-lhe um dedo nos lábios. Chiu, meu querido, vais ter de ficar em silêncio. Achas que consegues? Como já fizemos das outras vezes.

Dois operários, o Carlos e o Sousa, entram em casa:
Viemos para instalar o medo
Nao há escapatória possível:
Cidadão que, à terceira, não confirme que entende as instruções pode e deve ser objecto da devida admoestação física, a eleger dentro das legalmente permitidas, ao critério da equipa de instalação
A partir deste momento já lemos o romance com medo.
De jeito magistral, o Rui Zink consegue comunicá-lo, sem aviso prévio nem prolegómenos: indefensão, perigo, urgência… Não nos abandonará até o final do romance. O medo, já conhecido, tem razão de ser.
É um objectivo patriótico (…) É pelo bem do país
A seguir aparecem as ameaças reais da sociedade em que vivemos: a crise, o Mercado, o terrorismo…, expostas de forma muito engenhosa (O mundo mudou. Mas como pode o mundo mudar se as pessoas não mudam?), com ironias (Deixamos de o servir para o servir melhor), comparações (Têm doenças, como os pombos), frases para lembrar (Isto da instalação tem uma parte física e uma metafísica), também humor (O segredo está na massa) e criações de palavras (Sousa sanchopança Carlos).

Gostei porque Rui Zink escreve tudo aquilo que estamos a viver e a sentir.
E também gostei do final. Nele a vítima devém carrasco.
Se calhar há um bocadinho de esperança…

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