Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

CONTOS COMPLETOS de Fernando Pessoa

(Leitura proposta para lerem os membros dos clubes de leitura da federação Pega-no-livro, junto com «Alma» de Manuel alegre)

 Contos Completos

Contos Completos

de Fernando Pessoa

Edição/reimpressão: 2012

Páginas: 180

Editor: Antígona

ISBN: 9789726082231

O livro compõe-se de dois grupos de relatos do autor e mais três contos de um escritor norteamericano O. Henry traduzidos por Pessoa. Inclui-se também uma peza teatral que ele denomina de «Drama Estático» por razões explicadas pelo próprio autor em um excerto que figura na introdução.

Esta introdução, da autoria de Zetho Cunha Gonçalves, descreve um por um os textos que vão ser lidos posteriormente pelo leitor que optar por seguir a orde afixada pela numeração das páginas, a qual não foi seguida por quem assina este papel, que preferiu deixar o estudo preliminar para o final. Este modo de agir tem por albo não permitir condicionamentos alheios para o afrontamento das narrações.

O primeiro grupo, que contêm seis contos, foi baptizado pelo Pessoa como «Contos & Crónicas Decorativas». Nos dois primeiros trata sobre a não existência de dois países quase míticos naquela altura como eram o Jápão e Pérsia. Na primeira das crónicas decorativas afirma que o primeiro não existe (apenas nas peças de louça); na segunda lamenta a notícia do recente descobrimento de que Pérsia, contra toda evidência anterior, existe realmente. E este nefasto achádego é devido aos cientistas, contra os que deveria criar-se uma Liga Anticientífica. (Porém Pessoa, melhor dito, Álvaro de Campos, escreveu noutro lugar «o binómio de Newton e tão belo como a Vénus de Milo»). O terceiro é uma fábula singular, pois carece de moralidade, e o quarto é o famoso «O Banqueiro anarquista» em que o discurso é um percurso ideológico comandado por uma lógica estrafalária que, no entanto, enlaça com esperteza uns e outros silogismos para aterrar nas conclussões mais esquisitas. Quem leia este relato deve ter em conta a auto-descrição ideológica do poeta:

Liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário. Partidário de um nacionalismo mítico, de onde seja abolida toda infiltração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo houve alguma vez espiritualidade.

São divertidos por paradoxais, os três últimos do grupo: «Um Grande Português ou A Origem do Conto do Vigário», «O Automóvel ia Desaparecendo» e «A Varina e a Lógica». Já agora, o segundo deles foi um encargo publicitário para a firma de pinturas BERRYLOID.

O segundo grupo «Fábulas para as nações jovens» está conformado por seis contos bastante curtos em que resplandece a fina ironia e a causticidade levada em casos a extremos pouco habituais. Um deles, escrito em Janeiro de 1931: «Eu o doutor», parece ter sido pensado para responder à ascensão ao poder do Doutor Oliveira Salazar, que nesse mesmo ano ganhou a presidência do conselho de Ministros e impulsionou a elaboração de uma nova constituição (que sumiu o país em mais de 40 anos de ditadura).

Os três contos que vêm depois, são traduções de outros tantos do escritor americano William Sidney Porter, escritos na Penitenciaria Federal de Ohio baixo o seudónimo de O. Henry, inspirado pelo capitão dos guardas prissonais Orrin Henry. Di-se na introdução que:

Pessoa apossa-se do texto alheio, dando-o, em tradução portuguesa, quase como que heterónimo e, ao mesmo tempo, ortónimo, e seu. Ou seja, ao servir-se do texto original para atingir um ponto de chegada que seja a criação de um texto análogo, esse texto não deixa nunca de estar impregnado da sua indelével marca pessoal e da clarividência do seu génio.

Este autor teve um grande sucesso na época em que publicou os relatos em revistas aonde eram enviados clandestinamente por médio de uma irmã de um companheiro de prisão. A crítica do seu país não lhe foi favorável, considerando-o um pequeno imitador do grande Poe, mas em Europa, o escritor francófono suíço Blaise Cendrars e o português Pessoa, o têm entre os seus escritores favoritos. E perante a leitura de estes três contos pode-se compreender o porquê.

O livro inclui finalmente o conto dramatizado «O Marinheiro» com o subtítulo «Drama estático em um quadro» que segundo o Zetho Cunha Gonçalves é o centro inaugural do teatro e a prosa do absurdo de Beckett ou Ionesco. O sentido do humor do Pessoa manifesta-se neste poema do seu heterónimo Álvaro de Campos:

Depois de doze minutos

Do seu drama O Marinheiro

Em que os mais ágeis e astutos

Se sentem com sono e brutos,

E de sentido nem cheiro

Diz uma das veladoras

Com langorosa magia:

Do eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos nós falando ainda?

Ora isso mesmo é que eu ia

Perguntar a essas senhoras…

Carlos Campoy, do clube «santengracia»

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