Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português


Caderno de memórias coloniais

O clube de leitura Léria (Eoi de Santiago de Compostela) e um grupo de 10 estudantes e docentes do mestrado de Ensino do Português Língua estrangeira do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho (Braga) juntaram-se no dia 1 de abril em Compostela para debater sobre o livro Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo.

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A experiência foi bem gratificante, e da Pega só podemos encorajar mais clubes de leitura a procurarem e estabelecerem contactos com clubes de Portugal ou outros países.

Yang Estela, estudante do mestrado, presenteou-nos com esta crónica sobre o Caderno de Memórias Coloniais. Ficamos muito obrigados a ela polo contributo. Também nos recomendou, na sessão conjunta, a leitura do prémio nobel chinês, Mo Yan, de quem há algum livro traduzido para o português, como Peito grande, ancas largas.

Mas vamos sem mais delongas ao comentário que Estela escreveu sobre o Caderno de memórias coloniais:

O livro apresenta o cenário particular da terra colonial pela perspetiva da filha de um eletricista. A história segue a linha do tempo, a partir da sua infância, até que ela regressa a Portugal. Por um lado, a autora usa uma língua banal na narrativa, com frases curtas e palavras coloquiais; por outro lado, as palavras são muito vivas. Mesmo que não fiquemos ao lado dela, podemos imaginar os cenários verdadeiros que aconteceram em Moçambique.

No livro, a palavra compreender aparece muitas vezes, como as seguintes: Não compreendia, precisamos de tempo para compreender, “Tens de ser livre, compreendes?”, “Compreendo” até só esse ano percebi o que o meu pai dizia quando (…), etc.. As experiências da vida colonial e os sofrimentos de viver em Portugal amadurecem a rapariga. Ao longo do tempo, pouco a pouco, ela começa a perceber as coisas que não ela entendia antes, mas ficavam na memória. Mas será possível ela entender verdadeiramente, afinal? Penso que não. Porque no fim do livro, a autora e outra pergunta: Para onde vais, agora?

A colonização e a descolonização são histórias muito pesadas no sentido envolverem conquistas implacáveis, guerras cruéis, lutas inúteis, e os retornados, que até podem ser considerados refugiados pobres pelo facto de que trabalharam tanto e perderam tudo. São realidades demasiado pesadas. Ninguém pode mesmo entender.

Os capítulos que me impressionam mais são o capítulo 4 e o capítulo 13: o primeiro descreve muito bem uma vida miserável do povo de Moçambique e o segundo mostra o contraste entre o branco e o negro. Encontram-se a bondade e a discriminação, o silêncio e a vergonha.

Além disso, o que me chamou mais a atenção é que, no fim de cada capítulo, há normalmente uma frase curta ou um paragrafo pequeno que tem sempre significado profundo. São partes em que vale a pena retomar a leitura.

(Estela – Universidade do Minho)


Relato de um certo oriente, em Tuga-Lugo-Lendo

Relato de um certo oriente

Depois de termos falado um bocado sobre como decorreram as férias de verão, era a vez de debatermos sobre o livro, mas os participantes da sessão do clube de leitura do sábado 26 de setembro não estávamos com vontade. Sou da opinião de que as pessoas eram reticentes em falar sobre o livro por acharem a história pouco interessante. Para algumas foi mesmo difícil ler e finalizar. Embora escrito numa espécie de exercício de ginástica literária, utilizando numerosos recursos narrativos, o que se passou com este Relato de um certo oriente foi que não cativou a imaginação dos leitores.

Houve críticas sisudas por parte dalgum integrante do clube, que diz que não faz sentido colocar a captatio benevolentiae no final do livro, ou que, sendo o relato a soma de pontos de visa de várias personagens, não parece muito acertado todas elas se exprimirem da mesma maneira e utilizarem o mesmo vocabulário.

Ainda por cima, no romance existe uma espécie de obsessão por manter o leitor confuso e sem informação. Além da protagonista, a Emilie, nem todas as personagens estão bem definidas. Não conhecemos muito da pessoa que fala em primeiro lugar, nem do irmão dela. Também não da mãe deles. A árvore genealógica da família é confusa. Há dúvidas sobre quem é que escreve em cada capítulo, e não se percebem muito bem algumas histórias, como a do arbusto humano no meio duma praça de Manaus a receber insultos e pancadas da multidão. Será que algumas histórias só existem na imaginação de uma mente enferma? Poucas coisas ficam esclarecidas. Não faz mal se o livro não informa profusamente sobre todos os pormenores, mas qual é o alvo desta desinformação? Não sabemos muito bem que pretendia o autor.

Há quem diga que é melhor vermos o filme que os alunos de literatura brasileira do Colégio Centenário de Santa Maria/RS fizeram sobre o relato e publicaram no Youtube

Ou se calhar, melhor do ponto de vista artístico, este outro:

Contudo, embora a opinião geral tenha sido negativa, é verdade que houve quem gostou de aspetos do livro, como a engraçada história da briga iconoclasta entre a protagonista e o marido dela, as exuberantes descrições cheias de palavras exóticas, os temas da aculturação, ou o mundo dos migrantes vindos do Líbano para o Brasil. Mas principalmente, ao lermos o livro percebemos uma ostentação intelectual por parte do autor, na complexa estrutura do relato e nos recursos narrativos utilizados. Se calhar é por isso que esta obra tem boas críticas dos especialistas e recebeu prémios. A história fica em um segundo plano e o importante passa a ser a própria forma da narração. Para quem gostar da análise formal, na Internet há fantásticas notas explicativas (que eu não vou fazer melhor), como por exemplo:

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Milton Hatoum

Mas o nosso particular painel de peritos carimbou, com a baixa nota média obtida (4,5), o chumbo da tentativa do senhor Hatoum. Achamos este exercício de ginástica de uma dificuldade extremamente alta, mas infelizmente a execução falhou.


A quinta das virtudes (Mário Cláudio)

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Este livro foi escolhido por vinculação geográfica do autor. Tem casa e centro de estudos em Paredes de Coura, na raia com a Galiza. Uma linda casa onde poder estudar a obra de Mário Cláudio situada num belo entorno onde poder passear pelo monte, duas atividades gratificantes.

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Sobre o livro só comentar que é um romance histórico profusso em vocabulário.

No centro de estudos, a casinha feituca que se contempla na foto, pode-se durmir prévia petição, e tem cocinha.

Bom fim de semana literário! (ou gastronómico)


A casa das belas adormentadas (Yasunari Kawabata)

Este livro merece duas crónicas devido á disparidade de critérios e pelo mesmo motivo vai ficar sem pontoar pois uma nota meia obtida de valores extremos não representaria a nenhuma das opiniões.

Crónica negativa:

Em resumo uma história repulsiva, o que não sei é como se dá lido até o final, se calhar por ser pequeno e abonda com quatro horas para chegar á derradeira página, um límite assumível para uma leitura desesperante. Difícil gostar do argumento e tampouco a escrita não resulta fermosa. Esperava-se algo mais sabendo que o autor é prémio Nobel. E o mais surprendente e desacougante é a obsessão por lhe tocar os dentes ás pobrinhas rapazinhas indefessas.

Crónica positiva:

Esta pequena novela, que ten como protagonista a un home vello, é unha reflexión moi interensante sobre o paso do tempo, a vellez, a soedade, a busca da felicidade, o erotismo, a morte,… cun final moi aberto e perturbador.
Considero que está moi ben escrita, mais tamén que é absolutamente desacougante.


AVELINO DÍAZ: POETA DA GALIZA EMIGRANTE

Antom Labranha

Nasce Avelino no ano de 1897 no lugar da Travesa, na freguesia de Santa Comba da Órrea, concelho de Riotorto (Lugo). Com sua família trasladar-se-ia para Meira quando tinha dez anos e, pouco depois, com apenas doze, começa o seu périplo como emigrante. Um parente havia levá-lo trabalhar para os Buenos Aires da Argentina, e lá vai ele, expectante e resignado coma moço cumprido: 

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“como se me dissessem que fosse sachar nas patacas ao leiro ou levar as ovelhas ao monte”.

Volve para Meira em 1916, onde subsiste fazendo de mestre em três aldeias da contorna – sem acreditação oficial, o que era frequente naquele tempo-  e indo ás segas a Castela.
10 euros x 7 cópias

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Quatro anos após volta  a emigrar, desta vez para Cuba. Porém, non havia encontrar na ilha caribenha o afamado paraíso dos colonizadores -de mítica abundancia e riqueza- senão que iria sofrer as duras condicões de miséria e repressão pelas quais passavam os trabalhadores. Dois anos depois decide volver a Buenos Aires, onde se estabelecerá definitivamente.

Enchoupado de saudades, no corpo e na alma, relaciona-se de contado cos círculos intelectuais galegos na emigração, nos que vai participar ativamente e aos que vai ir achegando unha produção poética salientável.

Membro do Centro Gallego e da Unión Gallega, destacado orador e conferencista, incorpora-se á Irmandade Galega desde onde realiza reiterados pronunciamentos contra o fascismo espanhol e a favor do reconhecimento do feito nacional galego.

Á intensa atividade como impulsor e dinamizador do associacionismo junta unha prolífica produção jornalística. Publica em diferentes revistas editadas na diáspora, como El Despertar Gallego, A Nosa Terra, Lugo, A Fouce, Verba…

No centenário da publicação dos “Cantares Gallegos” (17 de maio de 1963, data que dá origem ao Dia das Letras Galegas) escreve para Rosalía de Castro um muito formoso poema.

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Unha rosa pra ti, Rosalía

con galega fidel devoción

en homaxe das rosas nacidas

na verde roseira

do teu corazón.

(de UNHA ROSA)

Foi homenageado, em múltiplas ocasiões, por diferentes agrupações e instituições do mundo da emigração. Na homenagem que a Irmandade Galega lhe ofereceu em dezembro do 47 intervieram Manuel Puente e Castelao, de quem sentiria fundamente a sua morte (quando finou -no 1971-, Avelino foi soterrado cabo de Castelao e Suárez Picallo, no Panteão do Centro Gallego).

Xaneiro de ruín Vrao

que nos fire e nos abura

cunha lapa de tristura

desque se foi Castelao.

(de XANEIRO)

VOLTA ONDE NÓS COM O TEU AGASALHO VENTUREIRO

Avançada a década dos noventa -do passado século XX– parentes e vicinhos de Avelino decidem iniciar o processo de recuperação da sua memoria e da sua obra. Ele já não pôde voltar em vida, pero sua alma segue caminhando entre os tojos e as giestas de esta Galiza malfadada à espera de encontrarmo-nos um dia.

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Avelino na casa dos seus descendentes, em 2014.

Xesteiras de Santacomba,

donde andiven de rapaz,

toxal da serra de Meira,

quén vos puidera mirar!

(de AS XESTAS)

I-ademais non me resolvo

pol-amor de que ó volver

non me poidan conocer

i-é por eso que non volvo.

(de CARTA PR-Á TERRA)

Na fronte da casa unha placa rememora o seu nascimento, o seu aquele feitio de poeta, o seu humanismo, o seu compromisso aldeã e a sua universalidade. Há agora um sinal, unha “pedra chantada” que o lembra, que o traze ao memento, a essa memória coletiva que é, ao cabo, a Pátria:

Que froreza nos prados feiticeiros

a gama de choridas máis fermosa

e que medren nas valgas i-ós outeiros

verdescentes ramallos de loureiros

pra coroar túa frente maxestosa.

(de ¡MIÑA PATRIA!)

Ajuntar a sua obra á sua lembrança, espalha-la e dá-la a conhecer por aldeias, vilas e cidades, é agora o anseio de quem ata aqui tinha chegado. Implicar as instituições que nos representam ata podermos alcançar o reconhecimento pleno deste nosso egrégio poeta: “Um dia das Letras para Avelino” converte-se num desafio ao que dia a dia se sumam mais pessoas, coletivos e entidades.

Direiche do meu achego

neste meigo falar noso

pois é doce e é mimoso

falar de amor en galego

(de EIDO NOVO)

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A ÓRREA DESVENDA NO SEU NOME SUA PAISAGEM

Montanhas vertiginosas proclamam a sua prevaleça na procura do céu, esse não-lugar que nos conforta. As abas descendem apressuradas cara o fundo distante no qual se debuxa o rio Mourín, que estorce caprichoso e melancólico seu leito, dilatando a sua presença, para mais ficar …latejando

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Desde a janela, límpida, da rústica, humilde, casa que olhava cara o sul, o menino olhava a tona da terra escorregar com a chuva tempestuosa que bulia endoidecida à procura daquele rio persuasivo. Arrastando consigo a fertilidade, a terra pousava nas sebes e silveiras dos cômoros que interdiziam seu caminho, barrelas onde a enxurrada era contida. Logo de escampar o inverno todo, começava o labor regenerador: em cestos e canastros, a aldeia toda -suarenta, derreada- acarretava costa arriba a terra fugidia que precisavam para a sementeira.

Colleitas non abondosas

cada ano máis pequenas

terra que as augas levaban

cando viñan as tormentas

pró río, polas encostas

deixando soio penedas.

(estrofas de ESPELLO ALDEÁN)

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Xentes sempre consumidas

coma escravos de galeras

collendo toxos no monte

levando esterco prás leiras

carregando sempre feixes

naquela terra costeira

na que nin carros había

porque se deitaban nela.

Na outra beira ergue-se a serôdia capela. A rente, o cemitério, onde as almas aguardam pelo dia, novo, no que os sinos repenicarão, Avelino, na tua memória. Para o outro lado, no campo da feira trata-se o gado; comerciam-se mercadorias; intercambiam-se alentos, amores e desejos; transmitem-se noticias, contam-se histórias, arranjam-se lendas. Fundam-se mitos.

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I ANDAINA POR AVELINO

Vizinhos idosos que ainda te lembram, ou que crêem lembrar-te, vêm chamar-te à porta. Porque Ti também hás vir nesta romagem. Parentes pelo sangue, pela terra, pela dor, pela miséria compartida, pela epopeia migratória, pela língua subjugada, pela nostalgia da palavra ceivada, pelo verso imensurável… todos por junto numa soa voz, clara, impetuosa, reja, que na Galiza inteira se escute.

O itinerário havia-nos levar ao lugar da Pena, cabo de Meira, à casa para que foram viver aquando ele tinha nove anos.

Cando na patria, redento, me vexa

d-este pesar que me da desazón,

cando no morno regazo me teñas

heiche cantar a mais leda canzón.

(de MUIÑEIRA)

Isto é apenas o início dum longo caminho: uma andaina que hoje vai fazer parada em Meira mas que haverá de continuar, multiplicando-se, espairecendo-se por chairas, vales e montanhas, até cruzar o oceano que nos abrange.

Por volta da uma da tarde entramos em Meira. Era dia de feira. A pé do milenário mosteiro, aldeãos, vilãos e visitantes misturavam-se entre as bancas dos feirantes que comerciavam produtos da horta; artesanatos antigas em barro ou ferro; vestes, saias ou calças dos mais variados e coloridos tecidos… Avançávamos entre a balbúrdia da concentração, absorto o pessoal nos afazeres próprios. De súpeto advertem a nossa chegada e a um instante de silencio cerimonial sucede-lhe imensa ovacione que soava certa, que continha os ecos antigos duma historia por contar.

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E lá estavam –não podiam faltar!- gaiteiras, pandeireiras e bailadoras, jungindo-se a nós coma quem se substancia e dignifica num grito irrefreável.

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Hei, Carvalheira!

Xa está o gaiteiro

ó pe do cruceiro

soprando no fol,

i-o tamborileiro

petando lixeiro

lle sigue seu son.

(FESTA DE MEIRA)

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Nove ferreñas” interpreta, por elas musicado, o poema de Avelino Canzón pró sono dun neno“:

Polas valgas i os outeiros

a soma da noite cai

i un agromar de luceiros

o ceio amosando vai.

E zoa, zoa, zoa, zoa zoando

o vento polas veigas vai marmulando.

……. 

E durme, durme, durme, durmindo

Xa durme no barrelo meu anxo lindo.

Almoçamos á sombra de carvalhos, castanheiros, nogueiras e vidoeiros, com a frescura do arrolo novo do rio Minho.

¡Se xa na ponte de Meira

semellas ser un lanzal

mozo, que canta cantigas

i-ó lonxe vai troulear!

(de RIO MIÑO)

Ana Veiga, sobrinha de Avelino lê AS XESTAS. Em lembrança

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Que relembros me viñeron

que deseios de voltar

outra vez á terra miña

ver xesteiras e toxals!

Miguel, nado na Órrea, lê O MEDO. Para ganharmos o futuro.

Tiven polo mundo adiante
muito medo a me perder
e, cando me tope en Meira,
non teréi medo a morrer.

Para sabermos máis podemos consultar o libro “Avelino Díaz: Unha voz comprometida na Galicia emigrante” de Marivel Freire, editado pelas “Brigadas en Defensa do Patrimonio Chairego” (Lugo 2002) ou visitar a web da asociación: avelinodiaz.gal


Três boas razões para ler A Grande Arte de Rubém Fonseca

Uma integrante do clube Léria anima a ler A Grande Arte, do Rubém Fonseca, com os raciocínios que seguem em baixo. Muito obrigados a ela pelo contributo.

Gostas de livros policiais em que se mantenha o mistério até ao fim?

Preferes antiheróis a protagonistas perfeitos e, por isso, irreais?

Achas os livros estrangeiros uma janela para outras culturas?

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Se responderes “sim” às três questões, não duvides que “A grande arte” do Rubém, Fonseca é a tua próxima leitura.

Mais de trezentas páginas que precisarão de toda a tua atenção para poder seguir a mais complexa das sinopses. Violência, sexo, música, cinema, política, literatura, facas (…) e viagens. Viagens físicas e argumentativas com o destino platónico de avançar cara ideias e fatos que não se deixam alcançar. Todo um desafio inteletual esperando ser desafiado.

Serás tu o/a próximo/a corajoso/a?