Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português


REUNIÃO DO CLUBE SANTENGRACIA

No dia 13 de junho do 2014 reuniram-se os membros do clube de leitura «santengracia» para analisar o livro que estiveram a ler durante os meses da primavera. Um deles elaborou o seguinte texto que transcrevemos:
«O ÚLTIMO CAIS
O leitor mergulha-se no ambiente da burguesia da ilha da Madeira na segunda metade do século XIX.
A personagem principal é um médico que se ausenta periódicamente da ilha para exercer as suas funções a bordo em diferentes travesias pelos oceanos Atlántico e Índico. Nas conversas nestes barcos saim à luz opiniões sobre acontecimentos políticos da época: a abolição da escravatura, a guerra dos Boers, o movimento republicano em Portugal, o reparto de África entre as potências europeias, o incipiente movimento sufragista…
A personagem principal não o é tanto como um fio condutor das diferentes protagonistas do relato, todas relacionadas familiar ou sentimentalmente com aquele, sendo elas o principal objectivo da autora, a qual descreve a situação da mulher como vítima de um sistema que a discrimina dramáticamente.
A narração é fluida e as personagens bem construídas e verossímeis. Porém algumas delas ficam em um mero esboço e teria sido desejável um maior aprofundamento.»

O LIVRO FOI VALORADO COM 7,64

Uma das críticas expostas na reunião expressava a dificuldade do leitor em seguir o desenvolvimento do relato no relativo à multitude de pessoas que o habitam, por quanto as relações de parentesco faziam-se complicadas e difíceis de seguir , obligando o leitor a reler páginas anteriores para recuperar informações difíceis de lembrar de uma página para outra. Alguém do clube elaborou um relatório onde aparecem os nomes das pessoas junto com as suas relações com as outras e indicação da página ou páginas onde se falava de cada umha delas. Esta informação, junto com um glosário, foram coladas na secção de recursos de este blogue.
Acordou-se para os meses de verão, a leitura do romance de JOÃO TORDO:
Biografia involuntária dos amantes

Anúncios


O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO (Mia Couto)

voo-flamingo

O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO (Mia Couto)
TEMPO: pós-guerra em Moçambique, depois da independência

LUGAR: vila imaginária de Tizangara

ESTRUTURA e PERSONAGENS: o romance está estruturado em capítulos e contado em primeira pessoa pelo narrador que é quem apresenta tudo sob o seu ponto de vista a travês do personagem de tradutor e intérprete que ele desenvolve ó longo de toda a obra, como nativo do país ante o enviado das Nações Unidas
o italiano Massimo Risi, enviado pela ONU para investigar a origem das mortes dos capacetes azuis
Estevao Jonas e sua esposa Dona Ermelinda. Ele é o administrador de Tizangara
Chupanga, seu moleque
Sulplício, pai do narrador
A mae e esposa do anterior
Ana Deusqueira, a prostituta
O Padre Muhando, acusado de ser o explodidor dos capacetes azuis
Zeca Andorinho, o feiticeiro
Temporina, a moça- velha enleada com o Massimo
O irmao tonto de Temporina
Hortênsia, tia de Temporina, aparece em forma de inseto, um louva-a-deus
CARACTERÍSTICAS DOS PERSONAGENS:

Estevao Jonas, é um “agradista”, um “engraxa-botas”. Ele mostra-se “emperuado” com a sua posição atual, usa e abusa do poder. Quando chegara a Tizangara, vinha da guerrilha e as pessoas o olhavam como um deus.
Dona Ermelinda,personagem grotesco, pagada de si e com influência sobre o seu esposo, o administrador.
Ana Deusqueira, prostituta descrita em tom humorístico e posta em valor de como uma prostituta faz parte da investigação das mortes dos capacetes azuis explodidos. É muito importante a sua presença quando aparecem os pénis decepados “ para identificar o tudo pela parte”
Ela mesma contribui a fazer valer sua condição:
“Duvidam? São puta legítima”
“Uma puta nunca é ex. A putície é condanaçao eterna”
“Os soldados explodem. Não por mina, mas pelas mulheres que somos engenhos explosivos”
Temporina, personagem que introduze elementos oníricos e divinos, misturados com a realidade, símbolo doutra dimensão.
Zeca Andorinho, o feiticeiro que representa as raizes do povo, com poderes para tomar decisões com o Chupanga. É a voz dos antepassados quando diz que eles não estavam satisfeitos com os andamentos do país. Ele afirma que falta gente que ame a terra. Aliás, como noutros lugares de África. Faltam homens que pusessem respeito nos outros homens.
Sulplício, personagem fundamental, pai do narrador, voz crítica da situação dos moçambicanos em relação com os brancos estrangeiros.
Ele mesmo é preto: “não entendíamos a injustiça nem antes na guerra , nem agora na paz”.
Tinha sido polícia no tempo dos colonos, quando a independência e fora “prateleirado”.
“Fomos socialistas aldabroes. Somos capitalistas aldabrados”.
No tempo da colónia, Sulplício apanhara o Jonas caçando elefante e mandou-o a prisão. Foi quando a dona Ermelinda aparecera na prisão clamando que aquilo “era perseguição política”.
A travês deste personagem do pai, o narrador estabelece a oposição pretos/brancos, e como o administrador e a esposa estao com com os ocupantes estrangeiros.
Sulplício não entende como seu filho pode juntar-se, mesmo no rol de tradutor e por rações de trabalho, com os estrangeiros:”E você, meu filho, ainda se junta com essa gente”.
O filho concorda com o pai quando afirma: “Carecia-se de castigo contra os olhares compridos dos machos estrangeiros. Sobre tudo se fardados de soldados das Nações Unidas”.
Mesmo os inocentes caíam vítima da barbárie branca: como o irmão tonto de Temporina quando pisara uma mina e explodira.
Na campanha de desminagem, a presença de brancos é criticada pelo narrador. Ele próprio fala duma tripla espionagem:
– “eu espiava o italiano.
Chupanga me espiava a mim.
O administrador espiava a todos nós”
Quando o Padre Muhando é acusado de ser o explodidor, responde: “ fui eu mesmo que fiz explodir essa estrangeirada”.
Sulpício estava fora das modernidades e achava que a sua voz gravada podia ser empregada como feitiço contra a terra já martirizada.
Conta como iam á caça do flamingo para depois comê-lo, quando ele era criança.
Matar flamingos era prova de macheza “eu fiquei reprovado, um tanto mulherado até que conheci sua mãe: ela mesma inventara a estória do flamingo para acalmar meus fantasmas”.
Assim se explica o TÍTULO DO LIVRO.
Sulplício desconfia dos estrangeiros: “eles se preocupam com a ordem, para manter a ordem que lhes faz serem patrões. Não se interessam pela paz”.
“Não deixe nunca que um estrangeiro mande em si”, diz ó filho.
Quando Sulplício retirava os ossos do seu corpo e os pendurava duma árvore , pide ó seu filho que “não deixe esse branco chegar aqui. Não quero que me veja assim”.
Quando a barragem ia ser rebentada para que tudo ficasse inundado para apagar provas, diz par ao filho “leve esta pistola, mate-me esse Chupanga”.
Mas o filho não quer matar e diz assim a seu pai “ O Senhor nem flamingo matou”.
Para o pai, Chupanga “aquilo nem é homem. Simples bicho”.
RECURSOS ESTILÍSTICOS
Há um tom caricatural em toda a obra: no desfile das autoridades, na receção á delegação estrangeira, nos pénis encontrado decepados na estrada, no personagem da prostituta, na mulher do administrador, nos alinhados…
Ironia quando se fala dos Pakistanis por “usarem saias. Não é pois estranho que usaram bâtom, como se vê nos copos de wiski”. São tratados de efeminados.
Crítica aceda dos pacificadores brancos: os que comandavam roubavam terras aos camponeses. Sem amor pelos vivos, sem respeito pelos mortos.”
Realismo mágico com mistura do real e do imaginário: a mãe morta travou por um braço ao tradutor e os dois conversam. O filho pede-lhe que lhe conte a estória do flamingo: “Em fins de tarde, os flamingos cruzavam o céu”. Presença da mãe também na lembrança : “Minha mãe ficava calada contemplando o voo. Para ela, os flamingos empurravam o sol para que o dia chegasse ao outro lado do mundo”
Magia, feitiçaria, superstição envolvem todo relato “ o feitiço começa com o namoro. No preciso momento do orgasmo é que os homens explodem”. “ Eu já tinha ouvido falar disso, quando os estrangeiros montam as meninas de explodirem”.

 

POR QUE ESTE TÍTULO?
Todo o romance nos vai deixando pistas que explicam o porquê se titula assim.
Na noite quando se perde a noção da terra, é a presença e a voz dos flamingos que orienta os pescadores.
Quando ao final Sulplício embarca numa canoa para desaparecer, no longe parece não ser barco mas pássaro “ um flamingo que se afastava”.
“A viagem em que tinha embarcado meu pai tinha sido o último voo do flamingo. Até que escutei a canção de minha mãe, essa que ela entoava para que os flamingos empurrassem o sol do outro lado do mundo”.

 

 

O clube deu-lhe uma pontoação meia de 6,6


Festina lente (Marcos S. Calveiro)

festina-lente

 

Festina lente é uma história ambientada na Compostela do século XVI e no mundo do livro,

não chega a ser um romance de mistério, nem policiaco, mas tem breves traços de intriga, que estão alimentados com pequenas frases na gíria dos canteiros, o “arxina”.

Para a nossa honra, no clube contamos com uma neta de canteiros, que nos ajudou a traduzir a frase introdutória:

“Na oreteira xera Arria, e Arria xera onda Queicoa, e Arria xera Queicoa … “

“A auga ama a pedra, a pedra quere estar onda Deus, e a pedra ama o Templo”

(Quecoa: Deus, religião, o sagrado, templo)

Houve disparidade de opiniões sobre a satisfação da leitura; para todos os gostos: muito bom, meio bom, mau. A pontuação meia obtida foi de 6,1 sobre 10.

Todos compartimos que o autor fez um grande labor de documentação e que a época está muito bem retratada ao mesmo tempo que o ofício de livreiro.

No uso do vocabulário já houve dissensões, tivemos a quem lhe pareceu recarregado e a outros adequado por plasmar essas palavras que os galegos estamos a perder.

Em boca do autor, recolhido duma entrevista sua de há anos: “Para escrever uma história de época tenho de usar palavras que concordem com aqueles usos”.

Um outro reproche para este romance foi a falta de tensão na intriga, o livro começa com uma cena de mistério no cemitério, mas não se desenvolve com intensidade no resto do relato, pelo contrário, o livro parece intencionado a não narrar mistérios senão a aproximar-se a uma realidade histórica.

No lado positivo o texto vai ganhando interesse cara ao final e isso favorece um pouso de gosto que agradecem os leitores que conseguiram meter-se no mundo descrito nessas trezentas páginas.

A sessão estivo acompanhada de documentação correspondente á desaparecida muralha de Santiago de Compostela, um vocabulário da gíria arxina e uma entrevista ao autor realizada nos tempos em que publicou o romance:

http://img.geocaching.com/cache/2ffaa1b9-f538-47b7-a298-a541ad40c9cb.jpg

http://www.terrademontes.es/outras/dicciona.htm

http://www.fervenzasliterarias.com/index.php/de-actualidade/entrevistas/item/299-festina-lente-xerais-de-marcos-calveiro.html

http://todofluye.wordpress.com/2007/10/28/festina-lente/

http://bretemas.blogaliza.org/files/2009/06/xornada-adr-e-galix-canteiro-en-compostela.pdf

http://galicia.swred.com/artesan_canteiros.htm

http://amautacastro.blogspot.com.es/2008/08/arxina-fala-dos-canteiros.html

http://www.viravoltatiteres.com/UserFiles/pdfs/oscanteiros.pdf


Porquê ler Capitães da Areia do Jorge Amado?

O clube de leitura Léria terá na próxima terça-feira dia 1 a sessão de debate sobre Capitães da Areia de Jorge Amado. Leonardo, estudante da EOI de Compostela, deixou-nos este comentário do livro. Muito obrigados a ele pela gentileza.

Na semana passada acabei de ler o romance «capitães da areia» do Jorge Amado. É desses livros que uma pessoa nunca quer que acabe.

«Capitães da areia» é um clássico da literatura brasileira e tem motivos bastantes para o ser. Aliás, é um livro curto que está escrito de maneira ágil e com uma língua fácil de compreender para um aluno do nível básico.

Imagem

O livro conta a história dum grupo extenso de meninos da rua, órfãos que vivem num trapiche (uma sorte de armazém) abandonado e próximo do cais. As crianças são comandadas por Pedro Bala, líder carismático e autêntico protagonista do romance. O roubo, os enganos e as fraudes são o seu meio de vida.

O Professor, Sem-Pernas, Volta-Seca, Gato, Pirulito, Boa-Vida, Dora, são alguns dos meninos que logo acabamos por conhecer e compreender, porque o Jorge Amado desenha uns personagens com uns perfis psicológicos verdadeiramente complexos e profundos.

O dia-a-dia dos meninos permite chegar-nos ao Salvador de Bahia dos anos 30: uma cidade marcada pela crise originada na Grande Depressão de 1929, pelas diferenças sociais e por uma exuberante diversidade racial e cultural.

Imagem

Fonte da Imagem: http://www.universodosleitores.com/2013/02/o-pais-do-carnaval-de-jorge-amado.html

Ora bem, o romance apenas mostra uma parte dessa cidade: A Bahia da pobreza, dos malandros, do candomblé, dos capoeiristas, dos estivadores, dos doqueiros, das mulheres da vida, da varíola, e também dos Capitães da Areia; uma Bahia radicalmente separada e rejeitada pela burguesia dominante.

Jorge Amado oferece de forma crua, sem edulcorantes, a luta diária pela supervivência dos capitães. Mas não é uma historia triste e sem esperança. O livro está carregado de um otimismo contagiante. Apesar de diversos episódios certamente traumáticos (que não vou desvelar), o autor crê num futuro para muitos dos meninos. Alguns até acabarão por ganhar consciência de classe e lutarão para mudar a situação de todos eles.

Provavelmente este espírito positivo tenha a sua explicação em que o Jorge Amado escreveu o romance quando só tinha 27 anos.

Não posso deixar de pensar que uma Bahia similar a esta foi a que achou o meu avô apenas uma década depois, quando emigrou da Galiza. Ele também viveu e trabalhou no cais. Não foi afortunado e retornou aos poucos anos, mas sempre conservou a lembrança daqueles tempos quando era moço na Bahia.

P.S.

Um pormenor curioso!

Alguns dos meninos (provavelmente a maioria) estão inspirados em pessoas reais. Um exemplo é Volta-Seca, aquele menino que sonha com ingressar na banda do rei do cangaço, o Lampião. Lembro que o cangaço foi uma sorte de bandidagem caraterística do Nordeste do Brasil, imortalizada pela literatura e o cinema. De facto, ele foi um dos cangaceiros mais conhecidos da banda, na qual entrou quando era apenas uma criança. A tradição conta que foi o autor de dois dos mais conhecidos hinos cangaceiros: «Mulher rendeira» e «Acorda Maria Bonita». Morreu em 1997.


O tímido e as mulheres – Pepetela

pepetela-timido

O TÍMIDO E AS MULHERES. Pepetela.
Clube de leitura Lendo Lendas

Achamos o romance um bocado desestruturado: há muita visão crítica da sociedade pós-colonial angolana, mas não a conseguiu integrar numa narração harmonizada e apresenta-se colada, com truques (não sabemos se intencionados ou inconscientes) que não determinam o desenvolvimento da acção:

– i) A borbulha imobiliária que um empresário, que não tem nada a ver com o relato, expõe e logo esvaece-se. Cola-o dizendo apenas que o protagonista trabalhou para ele.
– ii) A corrupção do funcionariado. Cola este assunto desvinculando uma personagem do rol que vinha jogando no romance e do romance me smo pois já logo também desaparece.
– iii) A marginação da mulher, destinada a roles secundários na sociedade, nomeadamente apanhar marido. Cola este tema com uma ra pariga muito atraente, que é diferente porque não procura marido e gosta de estudar, e pela qual o protagonista tem um fraquinho. Mas por esse anseio de dignidade da mulher toda a relação que se produz é incidental: uns livros que ele empresta a ela, que fornecem um encontro. Tudo o resto é pela beleza.
– iv) A delinquência juvenil que relaciona apenas com o facto de ser o protagonista roubado. Cola-a fazendo que um dos rapaces delituosos seja irmão da rapariga de antes. Também não há consequências.

Aliás, não encontrei no que era próprio à vida do protagonista um relato condutor sólido, senão uma serie, ordenada no tempo, de circunstâncias aderidas.

Do que mais gostei foi do erotismo. Da cadência narrativa do erotismo estou a falar. Fiquei mesmo surpreendido da fluidez rítmica que o Pepetela conseguia nessas sequências.

Até que enfim: damos um 5,3


Axilas & Outras Histórias Indecorosas, de Rubém Fonseca

Aproveitei a noite anterior a uma viagem da EOI Compostela a Monção para ler este livro do Rubém Fonseca – estava mesmo com medo de ficar adormecido e perder o autocarro.

Axilas & Outras Histórias Indecorosas (2011) foi recentemente publicado em Portugal pela Sextante Editora, bem como outros títulos recentes do escritor brasileiro. Eu peguei o livro emprestado da biblioteca Ângelo Casal, onde já o depositei novamente. Lá podem encontrar outras obras dele, como o magnífico A confraria dos espadas.

Para quem não ouviu falar do Rubém Fonseca, ele é conhecido enquanto mestre do género policial em língua portuguesa. Ele próprio trabalhou como polícia em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Posteriormente foi professor de Psicologia na Fundação Getúlio Vargas.

Rubém Fonseca começou a escrever em idade tardia, sendo o primeiro romance de 1973 (O caso Morel). Em 2003 recebeu o Prémio Camões. Com 89 anos de idade, continua a escrever a bom ritmo. Nas suas obras transparecem as influências da literatura norteamericana, nomeadamente do género negro, e também do cinema. Ora, ele criou um estilo bem próprio, que acabou por influir em muitos autores do género, como a romancista brasileira Patrícia Melo.

Vamos então aos contos do Axilas, que se vai lendo em ziguezague: de algum rasto de compaixão à muita crueldade; da crueldade ao absurdo; do absurdo acelerado ao riso; do riso à vontade de fugir através da leitura; e sempre com Instituto de Medicina Legal ao fim do caminho – eis como as palavras do Rubém Fonseca ultrapassam o previsível, como os carros que ultrapassam de faixa em faixa na Avenida Brasil do Rio de Janeiro.

No conto que dá nome à coleção, “Axilas”, uma paixão por essa parte do corpo leva o protagonista a perpetrar o impensável. Na abertura da história, o narrador compara a sua contemplação de um braço com a que teria feito o seu bisavô:

   Eu ainda não sabia o seu nome, que depois descobri ser Maria Pia. Ela já estava sentada quando vi os seus braços, braços finos, que para o meu bisavô não causariam o menor interesse, ele provavelmente os acharia feios. Além do mais, Maria Pia usava uma manga cavada e os braços estavam totalmente desnudos. Meu bisavô gostaria que ela usasse mangas curtas meio palmo abaixo do ombro e que seus braços fossem cheios do jeito que Machado de Assis descreve no conto “Uns braços”. Maria Pia era fina, toda ela, eu sabia, desde o início, vendo-lhe apenas os braços. E quando ela deu-lhes movimento, pude ver parte da sua axila.

    A axila da mulher tem uma beleza misteriosamente inefável que nenhuma outra parte do corpo feminino possui. A axila, além de atraente, é poética.”

A axila leva-nos até ao surpreendente fim do conto, que aqui não vou desvendar.

O que não posso esconder é a permanente presença da morte neste romance, apto para ser lido de rabecão a caminho da morgue: isso sim, sempre a seguir a alguma noite de intensa e pomposa atividade erótica.

Ao contrário do que acontece noutros livros do género, com Rubém Fonseca vamos alternando o ponto de vista do tira (policial) e do criminoso, sem que nunca saibamos ao certo que viragem surpreendente vai acontecer na história. Assim decorre a história “Janela sem curtina”, onde assistimos ao encontro de um cruciverbalista e uma dubladora

Há coisas que acontecem a esmo, sem motivo ou explicação. O certo é que encontrei Alice novamente. Morávamos no mesmo prédio há anos e agora encontrávamo-nos duas vezes num curto espaço de tempo. 

O mundo que se mostra nestes contos não é adocicado, e o que vem à tona é uma sociedade em plena descomposição moral. Os criminosos agem com mais serenidade do que paixão, misturando o crime com pensamentos que vão da sexualidade frontal à literatura e filosofia, sem que falte o sentido do humor. Ainda no mesmo “Janela sem curtina”.

Preciso falar com você, me disse.

Você gosta de miolos?

Farei miolos hoje para o jantar, você quer ir jantar comigo, ela perguntou?

Adoro miolos, claro que vou, a que horas, senhora dubladora?

* (Dobragem ou dublagem é no Brasil o que em Portugal é legendagem)

E o pano de fundo?

Para recordar que o cenário em que as histórias decorrem não é propriamente idílico, Rubém Fonseca deixa-nos pequenas engenhocas verbais como esta:

Deitei-me depois das quatro, se estivesse na roça os galos já estariam cantando, mas só ouvia o barulho do caminhão da prefeitura recolhendo o lixo da rua, e o baque surdo das caixas plásticas de detritos sendo despejados num local onde eram triturados por roldanas metálicas giratórias. (Página 34)

O Rui Zink dá no alvo ao comparar as frases do R.F. com rajadas curtas de bala, e ao pôr em destaque o facto de ele ser um grande estilista.

E não quero adiantar muito mais do livro. Deixo-vos, sim, com o Conto “Livre-Alvedrio”, porventura aquele de que mais gostei, a aonde chegam ecos da origem portuguesa do próprio autor:

Uma coisa que eu não suporto é me perguntarem: “e porquê você entrou para a polícia”? Dou as respostas mais esdrúxulas, “porque gosto de estrelas” (não olho para o céu, e não vejo estrelas há mais de vinte anos), “porque gosto de banana frita” (odeio), “porque meus pais eram portugueses”.

Essa última resposta tem fundamento, mas a resposta fica para depois, talvez.

Para depois, talvez. Como não podia ser doutra forma, neste mestre do conto.

Veja-se:

Entrega de um prémio a Rubém Fonseca em Portugal.

Vídeo do Rui Zink sobre o livro A grande arte de Rubém Fonseca, que o marcou.

Algum vocabulário brasileiro que aparece no livro:

A porta do carona de um carro é a do acompanhante que vai ao pé do motorista. Pegar carona e dar carona é o mesmo no Brasil do que pedir e dar boleia em Portugal, isto é, transportar alguém de maneira gratuita num carro. A origem é a palavra espanhola carona, uma cobertura de couro que se costumava pôr cima da sela do cavalo.

Um apartamento de cobertura como o do conto Paixão, é, segundo o dicionário Michaelis,  um Apartamento do último andar de um edifício que possui um grande terraço na laje de cobertura.

Diz-se nesse mesmo conto: Mas eu não ia obedecer aquele intolerável ucasse da Nely. “Ucasse” é uma ordem ou decisão dogmática e autoritária. A origem da palavra é nuns antigos decretos dos czares da Rússia.

No conto “Intolerância”, depois de uma cena em que o narrador e a Gisleine andam a enxugar os pratos, o narrador diz que a bunda dela foi para o beleléu: beleléu é um lugar muito distante – neste contexto o significado seria próximo de sumir, desaparecer. O que a palavra bunda significa, prefiro que vocês próprios pesquisem.

No mesmo conto, diz-se: eu ia ter que dar o bilhete azul para a Diana. Dar o bilhete azul é despedir, ou demitir alguém.

Encher o saco de alguém é chatear, aborrecer alguém.

De maneira recorrente aparece a palavra macete, derivada de maço:

mas eu não podia repetir aquele macete, tinha que inventar outro…

O dicionário Michaelis define a expressão como: Chave de solução para charada ou situação cujos termos se desconhecem. Recurso astucioso para se fazer ou obter algo.

O xadrez é a prisão ou posto policial. O tira é coloquialmente o polícia (Pt), ou policial (Br).

E um penhoar desabotoado como o de Dona Lúcia (“O vendedor de livros”) é mais ou menos o mesmo que um robe em Portugal. Podem procurar imagens no Google.

Isso me parece papo furado: um “papo furado” é uma mentira ou conversa sem fundamento.

Uma rua grã-fina é uma rua onde moram pessoas ricas, chiques. Ao contrário, um(a) pé-rapada é uma pessoa sem condições, pobre. As duas expressões aparecem no livro.

Joseph Ghanime escreveu esta resenha