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Dois irmãos, Milton Hatoum

 

Dois irmãos. Milton Hatoum/Edições Cotovia, Lisboa, 2000

O romance marcado pelo Clube da Santengrácia para o 3 de Junho de 2016, depois duma interminável primavera de chuva e frio que convidava os leitores à saudade do bafo tropical que impregna o relato de Hatoum, tem muito de saga familiar, com raízes libanesas e destino tropical em Brasil. Do mediterrâneo luminoso à luxúria tropical de Manaus.

O romance descreve o impossível convívio entre dois irmãos gémeos: Yaqub e Omar, o caçula. A pugna será a ruína da convivência familiar provocada por Omar, o grande amor da sua mãe, Zana. O pai no entanto, Halim, ficará cada vez mais isolado e amargado por uma família rompida e o irresponsável comportamento do caçula.

Também há uma filha, a Rânia, solteira afinal por decisão própria e atraída também irremissivelmente por Omar e os seus excessos como se estes fossem as virtudes mais prezadas polas mulheres da família. A fatal ligação com prostitutas de ínfima condição e amigaços pouco recomendáveis dos bairros baixos de Manaus parecem acrescentar o atractivo do irmão rebelde no coro feminino familiar. Há ainda outra figura feminina, a Domingas e o seu filho, de incógnita paternidade este, oculta no segredo familiar. As mulheres são o autêntico pano de fundo do relato: Zana, a Rânia, Domingas, mas também a Mulher Prateada, a Pau-Mulato e as do lupanar lilás que vão tecendo os efémeros amores do caçula. Yaqub, no entanto, desaparece aginha da cena familiar para fazer vida própria como reputado engenheiro em São Paulo. Uma figura praticamente invisível no relato a não ser como contraponto da permanente agitação e desmesura do irmão

O romance, rico é peripécias, é essencialmente linear no argumento: o amor incessante, de forte contido sexual entre Halim e Zana acabará naufragando no permanente enfrentamento entre os dois irmãos; o engenheiro apartado para sempre do convívio familiar e o crápula omnipresente.

Detrás, como um bordão, a luxuriante natureza tropical:

Sentada na proa, o rosto ao sol, parecia livre e dizia para mim: “olha as batuíras e as jacanãs”, apontando esses pássaros que triscavam a água escura ou chapinhavam sobre folhas de matupá; apontava as ciganas aninhadas nos galhos tortuosos dos aturiás e os jacamins com uma gritaria estranha” (p. 80)

“Peixes os mais variados, de sabor incomum, cobriam a mesa: costela de tambaqui na brasa, tucunaré frito, pescada amarela recheada de farofa. O pacu, o mastrinxã, o curimatã, as postas volumosas e tenras de surubim.” (p 179).

Matéria de dicionário Houaiss? Em nenhum caso: música de recheio mais bem, incompreensível, sugestiva, embalante, protagonista permanente no relato.

O romance pareceu-me excessivo apesar da sua riqueza formal. As razões são duas, a primeira é a complexidade do vocabulário brasileiro para qualquer aprendiz de português como é o caso deste aplicado santengraciano; a segunda, a longitude e peripécias justapostas deste romance-rio onde a história familiar acaba desbordando todo limite, desde a evocada raiz libanesa – desenhada em breves e precisos traços: Biblos, o narguilé, o arak, os gazais ‑ até o interminável final de morte e destruição.

O santengraciano que escreve não pode por menos de lembrar com saudade aquele “Esaú e Jacó” do grande mestre da divagação e a ironia que é Machado de Assis. Dois irmãos também no romance de Machado, neste caso citadinos e polidos competidores por um mesmo amor inalcançável, enfrentados não por azar do destino senão por certeira predição duma cabocla adivinha que nada predisse decerto mas que achou algo de estranho na inesperada consulta daquela senhora grávida que queria conhecer o destino previsível do duplo fruto que guardava no ventre.

Hatoum frente a Machado: As mil e uma a noites tropicais frente ao conto medido, impregnado de ironia e saudade.

João Lopes Facal

Clube Santengrácia

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