Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português


GALEGAS NO XI ENCONTRO DE ESCRITORAS EM BRASILIA (do 13 a 17 de março)

Uma Luguesa, Adela Figueroa.

* Nota da Pega: Adela é integrante do clube de leitura Tuga-Lugo-Lendo.

Como participante no XI Encontro Internacional de Escritoras, senti a grande honra das minhas colegas, Helena Gallego (Marim.Escritora e jornalista) Célia Vázquez, (Universidade de Vigo, escritora) e de Maite Caramés (lingüista, e magnífica repórter fotográfica). Mas também o meu orgulho pela minha língua universal, extensa e útil, em que nos entendemos com todas as nossas colegas, escritoras do mundo Luso, mercê ao nosso idioma comum. Também por dominar a língua espanhola estabelecemos contacto frutífero com as nossas companheiras, que vindas de toda Sul-América e Miami, intercambiaram a sua criatividade e a sua amizade neste XI EIDE.

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Maria Teresa Caramés Casal e Adela Figueroa No Museu da Lingua Portuguesa em São Paulo. Diante da Canção de Martim Codax, poeta Galego, e de Manuel Bandeira, poeta Brasileiro. Adela iniciou a Palestra em Brasília com esta fotografia. depois de escutar a Vanda Salles de Rio de Janeiro em sua palestra:A poesia Musicada Em Brasil, as cantigas da Mulher do séc. XXI.

A posição das galegas foi a mais vantajosa neste encontro. Não temos qualquer problema para nos relacionarmos em castelhano, mas também podemos exprimir a nossa criatividade e perceber a das outras, na nossa própria língua. A Galiza tem, neste caso, uma posição privilegiada.

Porque a expressão da poesia encontra o seu melhor caminho quando ela for na língua do coração. Na língua em que sentimos. Pode-se traduzir, evidentemente, mas nunca vai dar igual .

Neste encontro conhecemos escritoras de Moçambique, Fátima,Langa ou Rikem, Márcia, Brasileiras entre as que cito com especial afeto e identidade a Vanda Salles,com suas Cantigas para mulheres, Malu Otero, Hermilda Chavarria,ou Valeria Gurgel.

Colombianas, Bolivianas, Mexicanas, etc. Todas deram rendida conta da sua empatia para com o mundo e os seus problemas. Identidades mestiças como resultado da permeação das diversas culturas que se encontraram em toda América, nomeadamente na América do sul.

Escutamos as poesias de Valsema Rodriguez, recitadas com emoção e representação viva e abrangente; os contos, de todos os países como o de Munay Pashñita de Guadalupe Mansilla de Peru.

Comprovamos como a aparente conquista da América por Europa, não pode fugir da influencia dos povos que lá foram dominados: A Negritude vinda da África e a cultura índia dos indígenas, submetidos por Espanhóis ou Portugueses, acabaram por permear a cultura europeia que, na sua soberba fala de descobrimento ou de “culturalização”, ignorando que lá, quando eles chegaram, havia habitantes com língua e cultura diferentes. Que os habitantes da África que lá foram levados, traziam consigo diversas línguas e culturas que também conseguiram impregnar a mais formal dos “conquistadores”.

O resultado é uma viçosa mestiçagem de grande sensibilidade e riqueza que está a forjar uma nova identidade. Percebe-se esta com muita força em Brasil.

País com mais de 220 milhões de habitantes e com um crescimento económico anual de mais do 4% e com uma força vital notória lá onde quer que dirigirmos a nossa olhada.

Perante esta realidade, agora,de volta à velha Galiza, à Europa, não posso compreender como há quem inibe voluntariamente a sua capacidade de falar e escrever em galego corretamente, sendo que esta língua nos abre a porta à nossa cultura e à grande janela da Lusofonia.

Não se entende como o galego não é ensinado sob a norma universal da ortografia comum luso-galega, pois nós, bem que comprovamos que com o galego caminhamos por Brasil todo, entendendo-nos e fazendo-nos entender e , ainda, lemos as nossas obras e demo-las a conhecer neste fabuloso encontro internacional de escritoras. A vantagem das galegas é muito superior à de qualquer outro país, pois as línguas espanhola e portuguesa juntas sumam mais utentes que outra qualquer, para além de tocar em todos os continentes. (É sabido que o nº de utentes de chinês é grande, mas esta língua só é falada num único país e com inúmeras variantes do chinês mandarim)

Não se entende como as editoriais galegas não exploram este campo da Lusofonia onde teriam muitas mais oportunidades, para além dos subsídios da “Xunta de Galícia”. Eu penso que não há nada como a independência e esta tem uma base importante na independência económica. Para mim foi sempre assim e desta maneira agi durante toda a minha vida  com independência).

Quero dar o meu muito obrigada a Nazareth Tunholi, organizadora do Encontro, e a Celia Vazquez da U.de Vigo que me animou a lá ir.

Também a gratidão a Maite Caramés que fez uma excelente reportagem fotográfica quer deste evento quer do nosso maravilhoso passeio por Brasil.

E, ainda a Brasil por ser um país forte, viçoso e com futuro.

Adela Figueroa, participou no XI EIDE com a Palestra: A escritora Galega na Encruzilhada. A oficina(obradoiro) A Galiza na Encruzilhada, apresentação de livros: O Mistério da Escada Interior, recital de Poesias dedicado a Cecília Meireles.

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O Mapa Cor de Rosa, de Maria Velho da Costa

O clube Tuga-Lugo-Lendo escolheu Myra, de Maria Velho da Costa, como uma das seguintes leituras. Deixo aqui uma resenha sobre outro livro da mesma autora. Na biblioteca de filologia da Universidade de Santiago de Compostela há um exemplar, para o caso de que algéum se anime a dar-lhe uma vista de olhos.
 
Maria Velho da Costa escreveu estas crónicas em Londres, entre dezembro de 1980 e outubro de 1982. A autora leva-nos da mão pela cidade adiante, parando um bocado para descansar com as tílias do jardim de Gordon Square à nossa volta. Da Inglaterra, testemunhamos a depressão económica da época Thatcher e o começo da guerra das Malvinas. De Portugal, ao longe, a deceção que se seguiu ao fim do processo revolucionário do 25 de abril. O tom é confessional, quase de carta. Para seguir os meandros da prosa, alguns parágrafos pedem uma segunda leitura.
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O clube de leitura Tuga-Lugo-Lendo vai-se debruçar sobre Myra, desta mesma autora. Foi por isso que levei emprestado O Mapa Cor de Rosa da biblioteca de filologia da USC, onde loguinho o voltarei a deixar para o caso de que alguém mais se anime a lê-lo. Apanhado numa época de bastante trabalho, umas crónicas davam-me jeito para ler entre insónia e insónia. Atraíram-me as ilustrações do argentino Oscar Zarate que acompanham a primeira edição do livro: três punks no metro, o escritório da autora, Virginia Woolf lendo num parque.
O Mapa de Cor de Rosa que dá título ao livro diz respeito às pretensões de Portugal, no último quartel do século XIX, de estender o seu império do Atlântico (Angola) ao Índico (Moçambique), que seriam frustradas pelo Ultimato britânico de 1890, que exigia a Portugal a retirada dos territórios dos atuais Zimbaué e Zâmbia – memorando que seria interpretado como uma traição à antiga aliança luso-britânica.
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O Londres de que fala Maria Velho acompanha bastante bem este janeiro de 2014 em Compostela, em três eixos de desassossego: crise, exílio e invernia.
O desemprego, as privatizações e subidas de preços de bens básicos deixavam poucas abertas para a esperança naquele começo da anos 80 na Inglaterra, também marcados pelo aumento da xenofobia e o começo da guerra das Malvinas, sobre a qual a autora se interroga repetidamente. No pano de fundo, vemos também pairar a rainha vestida de cor-de-rosa, e Ronald Reagan em visita oficial.
O exílio começa no próprio ato da escrita: porque se escreve sempre em terra alheia, em língua que não é mãe, assim entre amante e madrasta. Londres já entrara na literatura portuguesa da mão do Eça, Ramalho Ortigão, Almeida Garrett, e outros. Jorge de Sena vivia na cidade naquela altura, e o livro presta-lhe homenagem nos versos iniciais. Desse espaço de exílio parte-se para o exercício de dar sempre mais e mais voltas em volta de Portugal – e sempre com a saudade, o sarcasmo e o amor doentio interligados das mais intrincadas maneiras.
Ora, para salvar este túnel sem saída da ciclogénese de janeiro em Compostela, veio a Maria Velho da Costa com a invernia de Londres embrulhada em papel de fish and chips – peixe com patacas fritas, em jeito de louvor da gordura. De tarde em tarde, de rua em rua, de abandono em abandono, somos levados a encontrar um ponto de fuga no meio da desolação e a indolência:
São cinco horas da tarde. Em novembro, às três e meia cai o dia, às quatro a noite cerrada. Chove, essa chuva de Londres que raro jorra em toalha que escoe os céus. Está hoje porém um vendaval desusado, a rajada longa que arranca o que resta da folha viva e miúda, os jardins e parques em assembleias iradas; de braços ao ar, num rugir e estalar de ramos. Como o inverno é propício para a alegria, ao prazer do trabalho, aos trabalhos do prazer. É o tempo da luz dentro da casa, da consolidação dos afetos e das casas, onde as memórias se consolidam com vagas dormentes.
E se o livro leva o Mapa Cor de Rosa na capa, não é por acaso que a última crónica leve por título Tratado de Windsor, que em 1383 deu início à longa aliança luso-britânica. O encontro entre o Duque de Lencastre – que vinha de Celanova – e o rei D. João I aconteceu na Ponte do Mouro, no concelho de Monção. Sim, estivemos bem pertinho dali na visita da EOI Santiago a Monção, no dia 25 de janeiro. Eis outra das vias avessas que trazem este Mapa Cor de Rosa da Maria Velho da Costa à Compostela em janeiro de 2014.
 Fonte da imagem: Wikipédia.
Londres não é a cidade de Maria Velho da Costa – mas dificilmente adoptaria outra para tão íntima passagem de estar, diz ela no fim.
Joseph escreveu esta resenha.


O arquipélago do Senhor Napumoceno

O senhor Napumoceno da Silva Araújo fez rir a uns e baralhou um bocadinho a cabeça de outras.

A leitura deste livro poderia lembrar a qualquer uma das seguintes experiências:

Entrar num labirinto
Abrir uma cebola
Puxar do fio de um novelo emaranhado
Começar a comer um bolo que não se pode deixar
Abrir um jogo de bonecas russas

Eis uma das perguntas que se colocaram na sessão de debate sobre o livro, no sábado 11 de janeiro, no centro cívico Maruja Malho de Lugo. O fio, o labirinto e a cebola foram as metáforas mais escolhidas – mas se fosse a cebola, teria der ser uma bem emaranhada por dentro.

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O Testamento narra a história de ascensão social de um comerciante radicado em Mindelo, na ilha cabo-verdiana de São Vicente. Quando a empresa atinge segurança financeira, toma conta dela Carlos, sobrinho do senhor Napumoceno e resgatado por este último da miséria.

Maria da Graça é filha de um relacionamento do Senhor Napumoceno com D.Chica, uma das criadas. A paternidade é mantida em segredo em vida do protagonista, mas ele cede muitos dos seus bens à filha no testamento.

Riqueza de perspetivas ou fonte de confusão para o leitor? A controvérsia estava servida, e foi por aqui que enveredou uma grande parte da conversa. O que é claro: no fim o livro deixa mais de uma questão sem resolver. Há quem goste e não goste de ficar com este tipo de incógnitas.

Também o sentido do humor do Germano Almeida fez rir mais a uns do que aos outros, e em geral mais numa segunda leitura do que na primeira. Sim foi consensual ver o episódio da venda dos guarda-chuvas como um dos pontos fortes do livro, o que justifica bem a escolha do motivo para a capa da edição de bolso.

Foi avaliada positivamente a aproximação à realidade cabo-verdiana que fornece o livro – bem como à sua história, pois atravessa o período da Independência e vai até aos anos 80.

Contas feitas, o Testamento foi-se de Lugo com uma pontuação final de 6,8 pontos de 10 – houve, sim, quem insistisse no bom que seria fazer uma viagem a Cabo Verde.

No final da sessão escolheram-se as seguintes leituras, neste caso duas: Myra, de Maria Velho da Costa; e , de António Nobre, o livro que o senhor Napumoceno deixou em herdança à Adélia, a moça de olhos assustados por quem tanto se apaixonou.

Encadeando uns livros com outros, Tuga-Lugo-Lendo envereda pela primeira vez pela poesia, sem ao mesmo tempo deixar de lado a narrativa.


Sábado clubista em Lugo: Tuga-Lugo-Lendo (11h30) e Cultura do País (17h00)

Tuga-Lugo-Lendo reúne-se este sábado 16 às 11h30 no Centro Cívico Maruja Malho, para falar das Estórias Abensonhadas do Mia Couto. O livro foi escrito a seguir ao fim da guerra em Moçambique e publicado em 1996. Estes contos, em palavras do autor, surgiram “entre as margens da mágoa e a esperança”. Contacto: lugolendo@gmail.com

O Clube da Cultura do País reune-se às 17h00 no Lar da Cultura do País, para falar de A Pele Fria, de Albert Sánchez Piñol. A escolha deste romance enquadra-se num conjunto de atividades realizadas pela associação em volta da Catalunha, que incluíram um concerto de Cesk Freixas.

Na noite da sexta-feira anterior, também no Lar da Cultura do País (20h00), Teresa Moure apresentará Eu Violei o Lobo Feroz. O poeta Rafa Vilar participará também neste evento.

As atividades são inteiramente abertas.
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Já não sou Penélope, já não sou a que fica fiando e tecendo (Raquel)

O Último Cais, em Tuga-Lugo-lendo

A sessão de debate sobre o romance de Helena Marques foi nesta quarta-feira, 23 de janeiro. Ao romance foi atribuída uma pontuação de 8,08 / 10.Sem dúvida, uma aposta com uma muitas possibilidades de êxito…

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O Último Cais (1992) foi o primeiro romance de Helena Marques. A eles se seguiram A Deusa sentada (1994), Terceiras Pessoas (1998), Os Íbis Vermelhos da Guiana (2002) e o Bazar alemão (2010). Há que acrescentar a estes romances Ilhas contadas, um livro de contos ambientados em diversas ilhas.

As mulheres ocupam um lugar central na narrativa de Helena Marques. Outros temas recorrentes são as ilhas e a insularidade (nomeadamente da Madeira, mas não só), a transmissão da memória familiar ao longo de várias gerações, a permeabilidade entre diferentes culturas nos países marítimos, a narração e a literatura, e diversos eventos históricos marcantes.

A maneira de narrar da Helena torna a leitura envolvente, com frases longas que nos levam, quase sem percebermos, da voz da narradora às palavras e aos pensamentos das personagens. Terá algo que ver esta maneira de contar com a maneira de enfrentar o tempo nas ilhas?

O diálogo da nossa sessão centrou-se, em primeiro lugar, nas personagens femininas, como Raquel, a protagonista do romance, Maria Alexandrina, Luciana, Constança, e outras. Concordamos em que cada uma delas foge às convenções da sua época de uma maneira diferente. Surpreendeu-nos encontrar personagens femininas tão avançadas para a sua época, num romance ambientado principalmente na Madeira do século XIX.

A importância das criadas no livro também foi assinalada por várias das participantes no debate, assinalando-se que sem elas as protagonistas do romance não poderiam ter dado passo algum para uma certa emancipação. Por exemplo, para que a Maria Alexandrina estudasse medicina, foi-lhe exigida a companhia constante nas aulas da sua criada

Das personagens masculinas, Marcos é aquela que alcança um maior protagonismo no romance. De facto, o livro abre e encerra com ele – deixando às personagens femininas o espaço central da obra. Todos concordamos em que era uma figura apresentada sob uma luz positiva no livro, enquanto esposo e companheiro, primeiro da Raquel, e depois da Luciana, bem como pai da Clara.

Médico de profissão, Marcos mostra-se preocupado por questões como o avanço das técnicas contracetivas e as dores e riscos que as mulheres enfrentavam nos partos. Do ponto de vista político, Marcos empenha-se na luta contra o tráfico de escravos e mostra alguma simpatia pelo republicanismo da época, sendo porém partidário dos métodos pacíficos de mudança. E acredita por cima tudo no poder transformador da educação.

De maneira menos positiva são retratadas outras figuras como Frederico de Magalhães e Xavier, que por caminhos diferentes acabaram por trazer a desgraça às mulheres com que se envolveram.

Já quase encerrando a conversa, fomos falando das relações entre homens e mulheres no livro: felizes ou infelizes? Satisfatórias ou dececionantes? As opiniões eram diversas a este respeito, mas parece claro que a Helena Marques consegue transmitir a ideia de que a plenitude através do amor e da sexualidade é possível, apesar dos desfechos trágicos de muitos relacionamentos.

Para outra conversa tivemos que deixar um aprofundamento sobre outras ricas veias deste romance: a insularidade e as ilhas, as alusões à flora da Madeira, a maneira de narrar de Helena Marques, os eventos históricos referidos, e muito mais miolo impossível de se roer numa hora e meia de debate.


O coitado do Camilo vai-se de Lugo com menos de 6,5 / 10

6,45 de 10: eis a modesta marca que atingiu o Amor de Perdição do Camilo Castelo-Branco em Tuga-Lugo-Lendo.

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A última sessão de debate sobre o livro decorreu na quarta-feira 28, na EOI de Lugo.
Os ditados populares e provérbios do João da Cruz protagonizaram a primeira parte da sessão. No debate que se seguiu, compararam-se as mortes (por amor?) de Teresa, Mariana e Simão Botelho; falamos dos estratagemas do narrador para fazer passar a história por real; do binómio realismo-romantismo; da importância das referências a lugares concretos; e ainda da importância dos fenómenos atmosféricos e das estrelas na obra. Os materiais de exploração do livro serão em breve disponibilizados no site da Pega.

Para compensar a falta de luz das celas da Cadeia da Relação, do Porto, encerramos a sessão cantando Volvim à terra pro perdim o amor, de Suso Vaamonde, sobre um poema de Bernardino Granha.

http://letras.mus.br/suso-vaamonde/volvin-terra-pro-perdin-amor/

A EOI  de Lugo visitará amanhã, dia 2 de dezembro, a casa de Camilo Castelo-Branco em São Miguel de Seide.
Tuga-Lugo-Lendo continuará a sua programação com O Último Cais, de Helena Marques.