Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português


A casa do trasgo

Foi proposto em Lugo o seguinte tema de escrita: “a casa de um ser mítico”. A Almudena contribuiu com este texto que muito lhe agradecemos. Se alguém mais se anima a visitar a casa de um ser mítico, os testemunhos serão muito bem-vindos no blogue da Pega.

O meu nome é Cantarella e moro num monte chairego, lá na Fraga das Mouras. Sou um trasgo fêmea e gosto muito de brincar entre as árvores. Quanto ao meu aspeto, sou pequenina e trago habitualmente um gorro vermelho. As minhas orelhas são muito bicudas. Dizque tenho poderes sobrenaturais e também faço maldades: espalho fruta pela floresta e mudo as plantas de lugar.

De manhã costumo caminhar devagarinho pelos carreiros enquanto cavilo. Depois faço o almoço. Gosto de refeições leves e frutas várias. À tarde costumo brincar na lama com os meus amigos. O Meu melhor amigo chama-se Esquilo e gosto muito de pular com ele de árvore em árvore. À noite deito-me muito cedo depois de jantar uma sopa bem quentinha ou um caldo de castanhas. Tenho uma grande paixão pelas histórias que as fadas escreveram nas folhas dalgumas árvores e costumo ler até adormecer.

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Agora vou-vos apresentar a minha morada. É uma casinha humilde e pouco extensa. O jardim que há ao redor tem dez passos de comprimento e cinco de largura. A morada é de baseamento circular, mas a parte de cima é mais comprida e tem forma de guarda-chuva.

A casa tem 3 assoalhadas. A cozinha fica em baixo e em cima há o meu quarto e um aposento para convidados. A casa de banho fica lá fora, entre o arvoredo. Não possuo TV cabo, nem elevador, nem chuveiro, nem banheira, nem garagem porque não tenho necessidade destas coisas próprias dos humanos. A minha sala de estar é fora, no bosque. Isso sim, a carpintaria do meu domicílio é de qualidade superior em madeira de carvalho. No cimo da vivenda há um terraço muito engraçado com agradáveis vistas para o jardim e a floresta.

Esta é a minha casa e estão todos convidados!

Cumprimentos.

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AZUL-CORVO (Adriana Lisboa)

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Club de leitura Lendo lendas

(Comentário por Antom Labranha)

Desde um Brasil exuberante, uma adolescente rodopia á volta da sua identidade. Ela vai embora para o árido FarWest à procura dum pai biológico que lá deve ter, seguindo as pegadas dum outro pai, jurídico, a quem também não conheceu.

Porém, em toda história contada, quer real, quer imaginada, quer –como todas as histórias contadas e todavia por contar- um bocado real e um outro bocado imaginada-, bem fosse transmitida oralmente, bem escrita, sob os fatos que a história contém paira uma invisível pulsão narrativa que da ao Tempo pelo qual transita ritmos e dimensões específicas, peculiares… exclusivas: Gerrilheiros da mata -luta e aniquilação-, imigrantes com e sem papeis, convivência e conflito de linguas, amizade, amor e desamor… entremeam e tecem un texto reflexivo, surpreendente, evocatório e cheio de ternura e meiguice que, num delicado equilíbrio, consigue manter um teor intrigante desde a primeira até a última frase.

Ou, se calhar são os fatos encerrados que pairam sob aquela pulsão narrativa: As pessoas transitam em realidades que, definitivamente, são já relativas, como são relativos os pensamentos delas e os sentimentos. O ponto do Universo que cada pessoa ocupa é um ponto que ela própria constroe, variável como os sonhos: os que já tiver e recorda, os já esquecidos, os que ainda abrolharam alguma noite clara ou algum dia escuro.

Ou, como o próprio título que anuncia a mistura que faz intrigante a tonalidade duma cor, o que subtância o romance AZUL-CORVO talvez seja a conjunção dessas duas perspectivas  referênciadas, jogando elas as duas à vontade por cima das palavras.


Um país de suicidas

João Lopes Facal, Compostela, 2012.

Portugal es un pueblo de suicidas, tal vez un pueblo suicida. La vida no tiene para él sentido trascendente. Quieren vivir tal vez, sí, pero ¿para qué? Esta foi a conclusão a que chegou Unamuno depois de auscultar Portugal. Lembrava Dom Miguel os ilustres suicidas do país irmão: Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Mouzinho de Albuquerque, “herói de África”, o escultor António Soares de Reis, que dá nome ao Museu de Belas Artes de Porto e talvez, por cima de todos eles, o mais grande amigo e mentor de Unamuno na arte de ser português, o doutor Manuel Laranjeira, aquele que lhe escrevia no ano 1908: En Portugal llegóse a este principio de filosofía desesperada; el suicidio es un recurso noble y una especie de redención moral. En este malhadado país, todo lo que es noble se suicida; todo lo que es canalla triunfa”. A diagnose, traduzida para o espanhol polo próprio Unamuno faria parte para sempre da sua interpretação de Portugal. Pela nossa parte, amigos como somos das letras portuguesas, não podemos deixar de acrescentar mais um suicídio: o do poeta Mário de Sá Carneiro, amigo de Pessoa, num hotel qualquer de Paris aos seus vinte e seis anos. O suicídio, um fado do país.

A última leitura do clube santengrácia foi “E se eu gostasse muito de morrer?” do jornalista escritor alentejano Rui Cardoso Martins. O título provém de “Crime e Castigo” de Dostoievski que põe a pergunta em boca do assassino Raskolnilkov. Rui Cardoso concorda com a pergunta mas não acha resposta clara: “E se eu gostasses muito de morrer?…que bela pergunta à que ninguém sabe responder!”

Cardoso nasceu em 1967 na vila alentejana de Portalegre, Distrito fronteiro com Cáceres e Badajoz. O Distrito limita a norte e nordeste com as duas vilas mais formosas de Portugal, se nos desculpar Óbidos: Castelo de Vide e Marvão. Puro Alentejo: casas caiadas, azinheiras e silêncio.

“E se eu gostasse” é uma colagem de contos cruéis relatados com crueldade e temperados cá e lá por reflexões melancólicas impregnadas de ironia sobre a vocação irrefreável pela morte voluntária dos nativos. Reflexões marginais, fogos-fátuos fugidios, poderíamos dizer a propósito, que iluminam a desolação cruel das histórias que presidem o fúnebre romance. Duas são as minhas favoritas. A primeira descreve Portugal como um país impossível partido em duas metades opostas por um rio que separa uma terra de suicidas cá no sul e outra que não gosta de procedimentos tão expeditos lá no norte. A diferença norte/sul é muito importante para o país a começar pelos gostos alimentários. Descreve Cardoso a receita perfeita no sul: Sopa de Alentejano Feliz. Não fatam os coentros, o sal grosso, o azeite, o pão e ovo escalfado de toda açorda alentejana que se prezar, a diferência está na especiaria proposta para dar-lhe o toque definitivo: xanax, benurom, prozac e valium, tudo bem esmagado. A receita tem a vantagem adicional de que permite poupar em cloreto de sódio que faz mal à tensão arterial, segundo opinião autorizada de Cardoso que devemos agradecer. Contrasta a criatividade desta sopa à moda alentejana com a receita tão simples da Sopa de Cavalo Cansado preferida no norte. Galiza incluída, acrescentamos nós. Cá na Gallaécia os gostos são menos refinados e sempre foram preferidas comidas menos condimentadas. Um traço histórico, talvez.

A segunda reflexão que guarda a memória é mais subtil porque alude a questões de estética. Disserta o autor sobre janelas manuelinas: “Quanto às cordas e cordames enrolados da janela, tão característicos da manuelice, admiro que estejam mais próximas desta realidade. Já dão ares de cordas dos desesperados que se enforcam na tábua de algum desvão, como dizia o poeta”. Adoramos a denominação de manuelice para qualificar essas obras-primas da arte portuguesa. Quanto à realidade aludida no comentário de Rui Cardoso, é uma referência que faz o autor para explicar o facto misterioso de as janelas manuelinas, de formato tão marítimo, ficarem em vilas interiores de Portugal. A única justificação em opinião de Cardoso é a de não ser infrequente terem encontrado na barragem mais próxima da vila “o coração arrebentado dum marinheiro … nas águas entre os chaparros, vomitando a feijoada e o garrafão de tinto”. A barragem pelo mar, a corda do enforcado pela cordame marinheira, esta é a entoação amarga e irónica de Rui Cardoso que nos prende e que talvez só pretenda ocultar a ausência de razões para viver que Unamuno diagnosticara.

O debate sobre o livro entre os assistentes à última reunião do santengrácia distou de alcançar unanimidade. Duas foram as posições em lida, concordantes ambas as duas no carácter marcante do livro -não é livro a esquecer facilmente- mas discrepantes no gosto do autor pelo esquartejamento e o morticínio que impregna os mais dos relatos. Houve reservas e eu adiro. Pessoalmente acho mais estimulante os contos de inquietação capazes de removerem o medo primordial que guardamos desde a infância que não a crueldade massiva e gratuita que impregna filmes do tipo de “Seven” ou de “A matança de Texas”. Se me desculpa o senhor Cardoso gostaria roubar-lhe o lema que encabeça o seu romance: “Não gosto de pessoas que se matam. Acho uma falta de educação. Tereza” Comparto a opinião quando penso em filmes que gostam de salpicar de sangue as primeiras fileiras da sala de cinema. Melhor a morte imaginada depois da ingestão de uma dose de Sopa de Alentejano Feliz do que um assassinato a machada. A literatura gore não é para mim, prefiro o pressentimento da sombra que se insinua no umbral. O erotismo do medo.

A árvore dos cabritos, o triple suicídio de Maria Ana, as 23 facadas na infeliz Catarina, a eficiência da máquina de cortar cortiça da fábrica de rolha são episódios que não se esquecem facilmente mas, quanto melhor a saudosa lembrança adolescente dos liceus suecos do Alentejo a 47 graus centígrados no verão que não dão para falar de Kant ou de Pitágoras ou a cena aquela do neto de 11 anos que maçava no avozinho camponês com o seu gameboy japonês até empurrá-lo -pára com isso! pára com isso!- ao veneno de escaravelho de batata, 605 forte.

Um coveiro inicia o livro e um coveiro o fecha. Dois cemitérios que talvez sejam um só, aquele que faz exclamar o autor “Em que fado parámos, onde fica Portugal?”

 


FARDA, FARDÃO, CAMISOLA DE DORMIR (JORGE AMADO)

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-Foi lido no clube da Anxel Casal.  Comentários por Antom Labranha-

Aquando vi o título deste livro teve a impressão que tinha pegado em coisa humorística. Nem sempre tudo é o que parece.

São tempos de apogeu do nazismo, o Hitler está no topo da sua fama. Além dos avances das suas Divisões compre termos conta dos avances da ideologia  que o Führer  encarna, que ultrapassa o Atlântico e chega mesmo ao Brasil.

É nessa que o poeta Antônio Bruno, membro da Academia Brasileira e que mora na França,  vai embora da vida enfartado por causa da queda de Paris sob a invasão das tropas alemãs. Ás voltas da desejada Cadeira do académico que fica, por tanto, vaga, o autor tece um romance  todavia não isento de humor mas  de intriga, crítica social ao Estado Novo e  luta clandestina pela libertação. Uma história de emaranhamento de interesses – espúrios uns, legítimos outros- passionais por ambição material, intelectual, glamourosa  ou mesmo de autêntico amor.

Achei, embora seja uma obra de meados do S. XX, a  estrutura bastante moderna: a sequência dos fatos  é predominantemente linear, embora joga à vontade cos tempos, antecipando personagens ou ações… que resolve surpreendentemente por duas vezes (O quê?  Sim, têm lido bem, por duas vezes).

A maneira de contar é  mesmo engraçada, suave, doce, insinuante  e irônica. Contudo pode resultar um bocado reiterativa, com hipóteses de chegar a ser maçador, pois descreve em pormenor os lances que acontecem entre os candidatos á Cadeira e os académicos que devêm eleger, mediados todos pelos respectivos  padrinhos. E é que são muitos e parecidos.

Como contributo à construção das personagens intercala episódios que podem distrair um bocado do tema central, tema que o próprio autor declara a jeito de introdução e do qual, pessoalmente, discordo até o ponto de concluir que o romance seria muito bem intitulado com uma das frases que mais decoram o texto: Canto de Amor para uma Cidade Ocupada, título do poema que converte o finado poeta no elíptico protagonista da história que nos é contada e que, desse jeito integraria muito bem os diferentes episódios.


Encontro com a María Reimóndez. En vías de extinción.

Lendo Lendas con María Reimóndez

Lendo lendas Terça-feira 27 do 11 do 2012

Outra nova agradável velada para o nosso clube. Esta vez acompanhou-nos, e lhe estamos muito agradecidos, María Reimóndez. Comentamos o seu último livro “En vías de extinción” mentres partilhamos umas cervejas e algo de empanada.

A primeira meia hora aguardou María pacientemente, assinando livros e á espera que chegassem os que tinham choio até última hora.  Fomos dez membros do Lendo lendas. E daquela começaram as perguntas e comentários.

L.L. : Quanto tempo che levou escrever o livro?

Maria: Muito. Sete anos pensando nas personagens e formando unha idéia sólida deles e da história que queria contar, tomando alguma nota. Depois, três semanas intensíssimas de escrita até ter uma primeira versão.

L.L. : Que significado tem o “mono a conduzir o carro” da página escrita em alemão? Não resta valor á obra os textos intercalados em inglês e alemão.

Maria: Acho que não. A obra entende-se perfeitamente sem entender esses breves textos. Alem disso têm uma intencionalidade, é uma chamada de atenção á leitora, ser conscientes de que mais línguas ampliam o campo do conhecimento. Isto é mais acusado em falantes de línguas hexemónicas, como o inglês ou o castelhano, onde a expressão noutras línguas produz uma autêntica sorpressa.

De feito a autora decidiu que na tradução para o castelhano ,que já está em marcha, os diálogos ficarão em galego com um anexo de palavras ao final do livro.

Os textos em alemão são letras de canções dum grupo germano com muita retranca.

Aqui começamos a falar sobre a estrutura da obra com saltos no tempo marcados em cada capítulo com uma analogia ás capas das árvores. Entre os leitores houve de todo, gente que lhe custou seguir esse fio nas historias e gente que leu com completa fluidez.

Depois passamos a falar da familiaridade da obra  para todos nós, pois todos tínhamos algo com que sentir-nos identificados, mesmo com varias cousas. Aqui, a nossa membra viguesa começou a falar do seu enganche com a historia já desde o primeiro capítulo, nomeado de “Toxo”, xogando entre o nome da árvore e o carácter da protagonista, e como lhe saia o sorriso nas coincidências. A visão de Maria é que a protagonista está construída nas extremidades com quatro ámbitos nos que se posiciona fora do comum e por tanto  dificilmente associável a uma pessoa em concreto. Comentava também que precisamente esse viver no diferente dá a riqueza de conhecer o duplo, pois quem vive no centro só pode conhecer o lugar comum das cousas.

E mais ou menos nesse tempo a colega da Ulha leu-nos a súa crónica da obra que será subida a outra entrada deste blogue. E prosseguimos com as perguntas.

L.L. : De onde es Maria?

María: Sou de Lugo cidade, mas a minha principal fonte lingüística provem da zona de Becerreá, da minha família paterna. Também sou um pouco de vários sítios porque pela minha profissão de tradutora devo ter um contacto profundo com diversas culturas. Escócia, Alemanha, Tamil Nadu.

L.L. : Porque explicas ao final explicitamente que esta obra não é autobiográfica?

María: Porque há um discurso muito estendido nos comentaristas dos livros a fazer esse tipo de vinculações biográficas e quis desmarcar-me axinha dessa questão.

E sem prolongar muito mais a juntanza passamos a votar qual seria o seguinte livro para ler no Lendo lendas e Maria opinou que ela gostara de “Poderosa” de Sérgio Klein, dentro dos que tínhamos na lista para escolher, mas ao final saiu eleito “Azul Corvo” de Adriana Lisboa.

Lendo Lendas con María Reimóndez (1)


O coitado do Camilo vai-se de Lugo com menos de 6,5 / 10

6,45 de 10: eis a modesta marca que atingiu o Amor de Perdição do Camilo Castelo-Branco em Tuga-Lugo-Lendo.

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A última sessão de debate sobre o livro decorreu na quarta-feira 28, na EOI de Lugo.
Os ditados populares e provérbios do João da Cruz protagonizaram a primeira parte da sessão. No debate que se seguiu, compararam-se as mortes (por amor?) de Teresa, Mariana e Simão Botelho; falamos dos estratagemas do narrador para fazer passar a história por real; do binómio realismo-romantismo; da importância das referências a lugares concretos; e ainda da importância dos fenómenos atmosféricos e das estrelas na obra. Os materiais de exploração do livro serão em breve disponibilizados no site da Pega.

Para compensar a falta de luz das celas da Cadeia da Relação, do Porto, encerramos a sessão cantando Volvim à terra pro perdim o amor, de Suso Vaamonde, sobre um poema de Bernardino Granha.

http://letras.mus.br/suso-vaamonde/volvin-terra-pro-perdin-amor/

A EOI  de Lugo visitará amanhã, dia 2 de dezembro, a casa de Camilo Castelo-Branco em São Miguel de Seide.
Tuga-Lugo-Lendo continuará a sua programação com O Último Cais, de Helena Marques.