Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português


Azul-corvo

(Comentário de Marité no clube Lendo lendas.

Quando a garota protagonista, Vanja , tem 13 anos “época de mutação”, vai desde o Rio de Janeiro para os Estados Unidos à procura de seu pai.
Sabe que lá onde vai, faz frio e, para imaginar as temperaturas abaixo de zero, abre o congelador.
Em Lakewood, no Colorado, tem saudades de Copacabana.
Até esse momento ela morava com Elisa, uma irmã de criança da sua mãe, depois que ela morrera.
A sua mãe contara tudo a Vanja sobre a pequena historia da vida da menina.
É por isso que ela sabe que Fernando, o ex marido da sua mãe, morava lá em Denver e , a través dele, quer encontrar o seu pai.
Compara Lakewood com Copacabana: o primeiro é um lugar estranho, árido e pouco verde.
Sente-se estranha “marcando meu território num território que não era meu”. A primeira impressão que tem daquela planície é “chata, sem graça”.
Vanja já aprendera inglês e espanhol com a mãe , ademais do brasileiro.
A sua mãe gostava de romper relações com os homens, com os lugares. Arranjara uma casinha em Albuquerque e Vanja nascera ali. Ali morou até os 2 anos. Mas não tem memórias disso . Ela considera ter nascido aos 2 anos em Copacabana: um mundo de conchas AZUL CORVO.
“Sempre achei cômoda a posição de estar em busca daquilo que não se vai encontrar”.
A mãe dava aulas de línguas tanto em Albuquerque como no Rio. Ela tornou-se nacionalista e dizia que o português aumentaria sua esfera de influência. Uma defensora das coisas pátrias . Entre elas, a língua herdada do colonizador europeu. Ela considerava o português a língua mais bonita do mundo.
Eram os anos 90 e ela ganhava menos no Brasil, mesmo sendo trilíngüe. Não podia pagar viagens aos Estados Unidos . É por isso que nas férias viajavam sempre para a Barra do Jucu, num Fiat 147, sete horas de viagem escutando Janis Joplin. A mãe teve ali dois namorados . Um deles começou a ensinar Vanja a surfar.  A menina era “violentamente ” feliz.

Nos Estados Unidos morava Vanja em casa de Fernando. Ela não tinha família: os avôs tinham também morto .
As pessoas centrais da vida de Vanja eram agora periféricas:
– a tia de criança da sua mãe, no Rio
– o ex marido da Suzana, no Colorado
Ela tinha uma dupla vida, era um “produto latino”

 A Suzana tinha trinta anos mais do que Vanja, pela altura, uma garota de 11 anos a quem a mãe tinha contado tudo á sua filha.
Com doze anos, Vanja perdeu a mãe. Depois disso, nada foi como antes. Ela não queria ter pena de si, nem quando ouvia “coitadinha”, “pobrezinha”.
Foi morar com a Elisa. Ela entendeu quando Vanja disse que queria telefonar para Fernando , o ex  marido da sua mãe. Um homem duns cinquenta anos que morava em Lakewwood e trabalhava na Biblioteca Pública. Ele não interatuava muito com a Humanidade. Muito diferente da Suzana, que gostava de festas e pessoas. “Como era possível que tivesse-se interessado por aquele cara”?
Oficialmente era seu pai e seu guardião. Ele registrou Vanja como sua filha.

“Depois de passar tempo demais longe de casa, pertence aos dois lugares , não exatamente a nenhum deles”
Fala de diglósia , duas línguas A e B . “Você é algo híbrido e impuro”.  A casa não estava em parte alguma. Vanja lia “ferozmente”.

A mãe e Fernando conheceram-se num bar em Londres onde ele trabalhava depois dum passado guerrilheiro na Amazônia. Ela ia com o namorado americano. Fernando e Suzana reconheceram o seu sotaque brasileiro e lá começou tudo: ele foi para os Estados Unidos detrás dela.

 

O pai dela chama-se Daniel e isso tornou-se para Vanja uma busca ao tesouro. A través de June , amiga de Suzana, Fernando localiza a mãe de Daniel, uma artista chamada Florence. June tinha mais de dez anos sem ver a Daniel.
Um dia a menina pergunta a Fernando:
– Você é o que meu?
– O que você quiser que eu seja.

Numa nevarada caída em Lakewood, Fernando apareceu com o trenó vermelho de plástico para Vanja. Também lhe tinha oferecido quando chegou em casa dele uma sacola com uns chinelos: em casa havia de tirar o sapato.

Em Santa Fê juntaram-se Fernando, June, Vanja e o pequeno Carlos o menino de El Salvador, vezinho de Fernando, que morava com os pais e estava obsesionado porque era um “sin papeles” muito amigo de Vanja.

Formavam “uma família improvável” de 4 membros.
Vanja pergunta-se “se um belo dia você acorda gostando de sexo, política e bebidas alcoólicas”.
O cheirinho do que fumavam June e Fernando traz lembranças da mãe : “Fui ao banheiro e chorei”.

Encontro com a avô Florence. Ela disse que seu filho morava em Abidjam, depois de seis anos.
“Senti uma raiva colossal, senti raiva de minha mãe por ter morrido. Senti vontade de gritar”.

Encontro com Isabel, a aluna de inglês de Suzana. Acabou ficando amiga quando era uma garota recém-chegada de Porto Rico
“Seus cabelos azul corvo, azul-concha, conchas azul-corvo, corvos azul-concha”

Quando Vanja fez catorze anos voltou ao Rio para visitar Elisa.
7 anos passaram desde o começo do romance.
“Faz pouco mais de um ano que enterrei Fernando” “Sem guerrilhas, sem esposas, sem amantes”.
Os pais do Carlos foram para a Flórida.
Carlos veio morar com Vanja porque ele havia prometido não sair do Colorado e não sair de perto dela. Já ele tem dezoito anos. Gosta das montanhas e é íntimo da terra.
Nick “beijou-me uma vez numa festa”
Vanja foi a Abidjam visitar o pai e a sua família. Vanja acha que “nem saudades tinha da Suzana”.
Daniel esteve nos Estados Unidos no ano passado, numa viagem de trabalho. “De tempos em tempos nos falamos por telefone”
Vanja trabalha na Biblioteca pública de Denver. Vendeu o carro de Fernando, um SAAB 1985 e comprou um quinze anos mais novo
“As pessoas já não ouvem sotaque quando falo”

 

 

 

VANJA

  • Madurez prematura pela morte da mae
  • Necessidade de afecto e chamada do “sangue” para buscar suas origens
  • Menina decidida e corajosa.
  • As pessoas mais perto dela não são família; Elisa, que passa por sua tia, Fernando que passa por seu pai, Carlos, garoto imigrante como ela
  • A avô Florence e o pai, finalmente encontrado, não parecem colmar o afecto e o carinho que ela busca
  • Uma vida marcada pelas perdas: da mãe, do Brasil, de Fernando
  • Uma marcada pela busca: das pegadas da mãe em Estados  Unidos, das amizades dela para achar Daniel, seu pai
  • Saudades do clima, da paisagem, das cores, da luz do Rio, de Copacabana
  • Não gosta do Colorado, “não há nada”, de Denver, nem de Lakewood. Mas é ali que ela vai ficar “marcando território num território que não era meu”
  • Acha que é uma “planície chata, sem graça”, com menos gente que no Brasil, aridez desértica pouco acolhedora
  • Sente-se estranha na terra onde tinha nascido mas que deixou com a mãe aos dois anos.

 

 

FERNANDO

 

 

  • É o homem que fez de pai de Vanja. “Eu sou o que você quer que seja”
  •  Ex guerrilheiro nos anos 70 no rio Araguaia
  • Militante do PC do Brasil
  • Carinho para Vanja, proteção e ajuda na busca de Daniel

 

TEMPO

 

A protagonista conta em primeira pessoa o que passou em sua vida entre os 13 anos em que foi para os Estados Unidos e sete anos depois quando finaliza o livro.
Há lembranças que a mãe lhe tinha contado, anteriores ao seu nascimento em 1970.
Fala da guerrilha em finais dos 60.
 

ESPAÇO

Brasil – Rio – Copacabana
Colorado – Denver – Lakewood
São os lugares onde ela mora
Albuquerque: ali nascera mas ela não tem lembranças
Novo México: em busca da família do pai
Abidjam: onde mora o pai

ESTRUTURA DO ROMANCE

É a história da vida da menina Vanja, quando ela perde sua mãe e decide reorganizar sua vidinha buscando as origens na pessoa do pai biológico. Um pai que não conhece e é apenas contactando com as amizades dos Estados Unidos da mãe que ela consegue localizá-lo.
O presente aparece incrustado pelo passado em todo momento: a história de Fernando, Chico, o ex guerrilheiro, a vida da Suzana, anterior ao nascimento da filha.
Em mais de um capítulo fala do título  AZUL CORVO: azul concha, corvos azul – concha, conchas azul – corvo.
Dois mundos, dois espaços, dois tempos sempre superpostos.

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Niketche. Uma história de poligamia (Paulina Chizane)

niketche

 

Niketche é uma dança de amor.

Estamos no Moçambique post-colonial. As influências cristiás mestúranse coas islámicas mas, sobre tudo, coas tradições africanas.

Porém, Moçambique existe como país porque existiu como colônia. A autora não declara assim, mas mostra que o Norte e o Sul são dois mundos diferêntes, e cada é uma amálgama de etnias com seus ritos e crenças: macua, tsonga, machangana, maconde, nyanja, ronga, sena, shona…

Niketche é uma dança de amor nas regiões de Zambézia e Nampala, no norte onde as mulheres inicíanse aquando raparigas muito novas para seducir e maravilhar os amantes, início que inclui até o alongamento dos genitais.

No sul a mulher fica mais submetida, presa à cinta, sob a responsabilidade da ordem no casal e a dedicação aos filhos. Quando dificultades com o marido fazem prezes ou tentam feitiços de bruxaria.

A Rami é uma mulher do sul, casada com um homem que practica a poligamia convicto de que tem direito a facê-lo. “Niketche” é uma historia de amor e rebeldia, de libertação. Mas não assim uma história heróica: não sucedem fazanhas célebres, gloriosas, épicas. É a loita íntima da Rami, com o coração, cheia de derrotas e resignações. No caminho encontra jeito de mudar rivalidades em alianças e sucedem pequeninas vitórias que  fazem permissão de avançar, nunca sem sofremento.

A autora escreve com muita duzura criando, entre frequêntes diálogos, parágrafos de reflexão duma formosura imensa. Através dos conflitos das personagens, e das suas relacións e contradicções com o entorno histórico-social, vira transparentes suas almas.

Se calhar é um bocado reiterativa e pelo medio pode resultar cansativa. Mas também não se rendam: virão acontecer coisas surpresivas que darão novo vigor ao relato.

 

Recomendo com encarecimento. Antom Labranha.


Já não sou Penélope, já não sou a que fica fiando e tecendo (Raquel)

O Último Cais, em Tuga-Lugo-lendo

A sessão de debate sobre o romance de Helena Marques foi nesta quarta-feira, 23 de janeiro. Ao romance foi atribuída uma pontuação de 8,08 / 10.Sem dúvida, uma aposta com uma muitas possibilidades de êxito…

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O Último Cais (1992) foi o primeiro romance de Helena Marques. A eles se seguiram A Deusa sentada (1994), Terceiras Pessoas (1998), Os Íbis Vermelhos da Guiana (2002) e o Bazar alemão (2010). Há que acrescentar a estes romances Ilhas contadas, um livro de contos ambientados em diversas ilhas.

As mulheres ocupam um lugar central na narrativa de Helena Marques. Outros temas recorrentes são as ilhas e a insularidade (nomeadamente da Madeira, mas não só), a transmissão da memória familiar ao longo de várias gerações, a permeabilidade entre diferentes culturas nos países marítimos, a narração e a literatura, e diversos eventos históricos marcantes.

A maneira de narrar da Helena torna a leitura envolvente, com frases longas que nos levam, quase sem percebermos, da voz da narradora às palavras e aos pensamentos das personagens. Terá algo que ver esta maneira de contar com a maneira de enfrentar o tempo nas ilhas?

O diálogo da nossa sessão centrou-se, em primeiro lugar, nas personagens femininas, como Raquel, a protagonista do romance, Maria Alexandrina, Luciana, Constança, e outras. Concordamos em que cada uma delas foge às convenções da sua época de uma maneira diferente. Surpreendeu-nos encontrar personagens femininas tão avançadas para a sua época, num romance ambientado principalmente na Madeira do século XIX.

A importância das criadas no livro também foi assinalada por várias das participantes no debate, assinalando-se que sem elas as protagonistas do romance não poderiam ter dado passo algum para uma certa emancipação. Por exemplo, para que a Maria Alexandrina estudasse medicina, foi-lhe exigida a companhia constante nas aulas da sua criada

Das personagens masculinas, Marcos é aquela que alcança um maior protagonismo no romance. De facto, o livro abre e encerra com ele – deixando às personagens femininas o espaço central da obra. Todos concordamos em que era uma figura apresentada sob uma luz positiva no livro, enquanto esposo e companheiro, primeiro da Raquel, e depois da Luciana, bem como pai da Clara.

Médico de profissão, Marcos mostra-se preocupado por questões como o avanço das técnicas contracetivas e as dores e riscos que as mulheres enfrentavam nos partos. Do ponto de vista político, Marcos empenha-se na luta contra o tráfico de escravos e mostra alguma simpatia pelo republicanismo da época, sendo porém partidário dos métodos pacíficos de mudança. E acredita por cima tudo no poder transformador da educação.

De maneira menos positiva são retratadas outras figuras como Frederico de Magalhães e Xavier, que por caminhos diferentes acabaram por trazer a desgraça às mulheres com que se envolveram.

Já quase encerrando a conversa, fomos falando das relações entre homens e mulheres no livro: felizes ou infelizes? Satisfatórias ou dececionantes? As opiniões eram diversas a este respeito, mas parece claro que a Helena Marques consegue transmitir a ideia de que a plenitude através do amor e da sexualidade é possível, apesar dos desfechos trágicos de muitos relacionamentos.

Para outra conversa tivemos que deixar um aprofundamento sobre outras ricas veias deste romance: a insularidade e as ilhas, as alusões à flora da Madeira, a maneira de narrar de Helena Marques, os eventos históricos referidos, e muito mais miolo impossível de se roer numa hora e meia de debate.


Un ano de vida para o Clube de lectura Paco Martín (Bretoña)

Era un tarde húmida; choiva, aire norteo de Carracedo, unha cheminea que non tira. O típico día de inverno nunha vila entre a mariña e a chaira: Bretoña.

Durante os días previos, os membros do Club de lectura Paco Martín andaron atarefados para deixar o Teleclube o máis presentable posible; cadeiras novas, unha vasoira que limpa o chan, as estufas quentando o ambiente, empanadas da terra,…

O sábado 29 decembro celebrábase o primeiro aniversario do club. O seu nome está adicado a unha figura literaria lucense: Paco Martín. Non podía ser de outro xeito; veu Paco Martín para celebrar o evento.

As cinco da tarde, todo listo. As primeiras persoas empezan a chegar ao teleclube. Entre os máis puntuais, Paco Martín e varios membros da súa familia. Paco deixou unha pegada fonda en Bretoña -onde foi mestre nos anos oitenta- e nos seus habitantes. Moitos britoniense foron alumnos. Algúns lembran as súas clases, outros os seus tiróns de orellas. Paco estaba de novo no teleclube, o mesmo teleclube no que dera clases trinta anos atrás. Algún dos seus ex-alumnos estaban presentes.

Un grupo nutrido de xente achegouse; máis dunha vintena, menos dunha trintena. Todo por escoitar a Paco. Algúns tamén por degustar os sabores dos petiscos. Outros por ouvir os contos da xente de Bretoña a carón do lume: lume imaxinario.

A velada animase escoitando as anécdotas de Paco. As súas lembranzas do seu paso por Bretoña. A importancia que tivo esa vila na súa carreira literaria. Lembra como “Das cousas de Ramón Lamote” se xesta nesta vila con tanta historia.

Deixa, unhas cantas frases para a reflexión:

O libro é deses que nace cunha flor no cu”

Paco Martín, en referencia ao éxito de “Das cousas de Ramón Lamote”

O humor só manca aos estúpidos. É unha arma magnifica”

Cando é preguntado pola acidez de “Das cousas de Ramón Lamote” contra os políticos.

Na charla, animada polas intervencións de varios asistentes, saen a palestra figuras do talle de Álvaro Cunqueiro ou Manuel María. Entre os asistentes encontrase Primitivo Iglesias, Rexedor do Concello de A Pastoriza e catedrático de lingua e literatura galega, que aportou pingas interesantes a unha discusión de moitos quilates.

Sobre a figura de Cunqueiro as referencias foron continuas. Martín desprende, a longo de toda a charla, unha forte admiración por Cunqueiro. Textualmente di:

Cunqueiro é un dos mellores escritores que deu o século XX”

Paco Martín

Neste senso fai unha relación dos fortes lazos que ten Cunqueiro co Concello de A Pastoriza, onde, por exemplo, ten lugar algún dos relatos de Cunqueiro: “Melle de Loboso”. Tamén se destacan as referencias cunqueirianas a unha personaxe importante na Bretoña do século XX; o cura grande de Bretoña, do que todos os britonienses escoitamos.

Paco non pode obviar -na súa charla- a grande capacidade de fabular de Cunqueiro. Desvela como o propio Álvaro lle conta con detalle unha novela que presuntamente está escribir pero que en realidade non é máis que froito dunha espontánea improvisación. Manuel María -revela Martín- tamén é vítima de Cunqueiro ao relatarlle toda a trama dunha obra de teatro na que presuntamente estaba a traballar: era falso.

Pese a ter un político na sala. Os ataques contra esta clase son finos coma un insecto pao e picantes coma o lombo dun “lizcacheiro”.

Os políticos non tiñan que ler máis; tiñan que ler algo”

Paco Martín

A anterior frase céntranos de novo no libro “Das cousas de Ramón Lamote” e a visita que fai Lamote a casa do rexedor, onde, tras facer máis pracenteira a espera cun libro, a muller do rexedor lle di a Lamote, que o seu home, unha vez ollara un. Simplemente xenial.

No punto álxido da disertación, Paco Martín, revela o seu truco de escritor, para, cando necesita un nome para unha personaxe e non se lle ocorre nada; as necrolóxicas do diario “El Progreso”. Falta o máis sorpréndete. Cando Paco Martín -o escritor- recibe una chamada de Ramón Lamote -a persoa-. Incluso chegan a dar un paseo xuntos por Lugo. O señor Ramón Lamote vive e reside en Tarragona.

A charla vai rematando. Tocase outro tema interesante para finalizar: escribir en galego nos anos setenta e oitenta.

O feito de escribir en galego facía que as autoridades te miraran mal”

Paco Martín

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Tras o coloquio chega o momento para que as xentes de Bretoña sexan as protagonistas. Contos, contos e mais. Contos a carón do lume sen lume.

Algúns dos mellores conta contos da bisbarra están presentes celebrando o aniversario do club de lectura; José de Mel, Siro Chao, Leonor de Quilino, Celina de Francos,… Todos rememoran vellas historias presentes no imaxinario colectivo da parroquia, intercalándoas con outros contos imaxinarios, mostrando as súas habilidades para cativar aos presentes.

O tempo pasa caladiño pero rápido, empezamos fai un par de horas: xa é de noite. Pasa o tempo da formalidade; chea o tempo da troula. Deixamos a cadeiras a un lado e achegamos a unha mesa chea de pequenos tesouros; pequena empanada, pequenos freixós, pequenos vasos de viño do pais… É o momento da charla distendida, mentres se enche o bandullo. O momento de confraternizar. O tempo de arranxar o país.

Pasa o tempo. Paulatinamente a xente vaise despedindo ata outra ocasión. Os máis atrasados apuran un pouco de chocolate e uns doces romaneses que comemos coma se levásemos varios días de xaxún. A guinda final, pona un licor romanés que entra moi ben cando estás sentado, pero, que despois non quere deixar que te ergas.

Así discursou o primeiro aniversario do club de lectura Paco Martín. Así agardamos que sexa o segundo,… ou mellor se cabe.

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Texto e fotografias: Seve (Bretoña)


Salazar e o poder, de Fernando Rosas

Como se explica que a ditadura portugesa fosse a mais longa da história europeia contemporânea?

Fernando Rosas deita luz sobre a questão em Salazar e o poder: a arte de saber durarrecentemente publicado com a chancela da editora Tinta-da-China.

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O regime totalitário em Portugal abrange três períodos: a ditadura militar (1926-33), o Estado Novo com o governo chefiado diretamente por Salazar (1933-68), e o período final que conduziu ao 25 de abril, com Marcelo Caetano à frente do governo (1968-74). Salazar e o poder debruça-se principalmente sobre os dous primeiros períodos, de formação e consolidação do regime.

 Com a auréola de ser um mago das finanças, António de Oliveira Salazar, um professor de economia da Universidade de Coimbra, é chamado em 1926 e 1928 para ocupar a pasta de finanças da ditadura militar do General Carmona. Em 1932 é nomeado Presidente do Ministério, e em 1933, Presidente do Conselho de Ministros, instituindo o Estado Novo. Só abandonará o poder em 1968, por causa da famosa queda da cadeira que o inutilizou.

 Desde as suas primeiras aproximações do poder, Salazar pretendeu ganhar o consenso das diversas direitas do país em prol do seu projeto totalitário e corporativista. A Igreja Católica, o exército, os movimentos propriamente integralistas e fascistas (Movimento Nacional-Sindicalista), a direita republicana e a direita industrialista ou “dos interesses”, serão os principais apoios que o Estado Novo irá procurar. O processo de adesão foi laborioso e não isento de crises de lealdade política, como a do fim da guerra (1947-49) ou a causada pola candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República (1958)

Além de assegurar as alianças das classes dominantes, o regime precisou de combater o movimento operário, de tendência principalmente anarco-sindicalista ou comunista. Fernando Rosas destaca a importância dessa oposição reviralhista à ditadura, muito menos estudada do que a resistência de etapas posteriores. A repressão contra o tal reviralhismo (1926-31) e o pós-reviralhismo (1931-1938) será especialmente implacável com o movimento anarco-sindicalista, que não voltará a recuperar a sua antiga hegemonia no mundo operário português. O partido comunista, com algumas influências libertárias na altura, será também duramente atingido. O partido reorganizado entre 1940 e 1944 terá de partir praticamente do zero, adoptando uma linha ideológica mais marcadamente leninista.

Fernando Rosas põe em questão o cliché segundo o qual a ditadura salazarista foi mais branda do que outras. A violência preventiva e punitiva figerom parte do regime desde o início. Se a repressão não atingiu as dimensões do franquismo, tal não foi devido à alegada “brandura” do regime luso, mas a uma estratégia de enraizamento e durabilidade no contexto específico da sociedade portuguesa da altura.

Ideias feitas sobre a mansidão do povo virão à tona de forma recorrente no discurso do próprio ditador, como testemunham os excertos de uma entrevista realizada a Salazar, e que Rosas parafraseia assim:

Mas haveria outra diferença a separar as duas ditaduras [a italiana e a portuguesa] – a que, também, mais à frente tornaremos com mais detalhe –, a dos “meios de acção”: “a violência”. Em Portugal a “brandura dos nossos costumes” e a deseducação do povo aconselhavam a prudência. Havia que governar “tendo sempre em conta esse sentimentalismo doentio a que nós estamos habituados a chamar bondade”. O que obrigava a ditadura a “ser calma, generosa, um tudo-nada transigente, vagarosa até”: “vamos devagarinho. Passo a passo. Nem outro ritmo ou energia haveria de carecer o ideal de mediania, o “viver habitualmente”, essa aurea mediocritas que o ditador definia como a felicidade possível ou conveniente para as aspirações dos portugueses, como a “imagem da pátria que se traz no coração: “uma casa branca, cheia de sol, num quintal cuidado, em que a vida é pacífica, alegre, operosa e digna”. Era um “fascismo à portuguesa” (Página 175)

O ensaio de Fernando Rosas mostra-nos que o salazarismo foi, no essencial, um projeto análogo às outras ditaduras fascistas da época. Fai-se a este respeito uma distinção entre o fascismo enquanto movimento e o fascismo enquanto regime. O primeiro, representado em Portugal polo MNS e integralismo, seria apenas um dos esteios em que assentou o segundo. Ocasionalmente, inclusive, esse fascismo enquanto movimento entrará em conflito com o Estado Novo feito regime. A detenção e posterior exílio na Espanha do líder integralista Rolão Preto será um exemplo dessa dissidência pola direita.

Quanto ao fascismo feito regime, ele só se pode compreender como uma aliança das diversas direitas em volta de um programa totalitário que visava aumentar as margens de lucro da classe dominante – esmagando, consequentemente, o movimento operário de classe, como já foi referido. Do ponto de vista ideológico, o corporativismo salazarista procurará a sua legitimidade numa reação contra os valores herdados da Revolução Francesa:

Era o programa do novo regime: a recusa do demo-liberalismo, a constatação da falência universal do parlamentarismo, a apologia do nacionalismo orgânico e corporativismo, do Estado Forte, o intervencionismo dirigista na economia, do imperialismo colonial (página 107)

O discurso legitimador do Estado Novo soubo também combinar uma vertente tradicional e ruralista com os interesses da direita dos “interesses” ou a tecnocracia “engenheirista”. O recurso à etnografia e à ruralidade em atos de propaganda, visava garantir a sujeição das camadas sociais mais populares. A criação de Casas do Povo e diversos grémios corporativos de produtores viria a ser a tradução sindical deste estratagema de controlo. Na última parte do livro, Rosas analisa pormenorizadamente a ideologia do regime, que apregoava a formação de um “Homem Novo”.

Outra vertente do livro di respeito aos esquemas a que o ditador recorreu para ganhar a lealdade das diversas direitas acima referidas, nomeadamente o republicanismo de direita e as Forças Armadas, onde encontrou maiores reticências no início. Fernando Rosas sintetiza assim a estratégia mais recorrente:

Como repetirá noutras ocasiões, durante a longa vida do Estado Novo, Salazar atrai os seus adversários para dentro regime com concessões, e depois “esvazia-os” politicamente, bem como às concessões e compromissos. (pág. 133)

As fissuras a respeito deste consenso das direitas só fizeram perigar o regime em crises ocasionais, como as anteriormente referidas. Quanto à Igreja Católica, a sua adesão leal ao Estado Novo só seria posta em questão – polos setores mais progressistas – aquando da chegada de João XXII ao papado. A carta do bispo do Porto (António Ferreira Gomes) criticando o regime será o testemunho mais emblemático do desencontro entre o regime e a ala mais progressista da Igreja.

Ainda que menos estudada neste trabalho, interessa também a maneira como Salazar construiu a projeção da sua própria personalidade. Num enquadramento narrativo que o aproximava do rei D.Sebastião (O Desejado), o ditador terá sabido aproveitar a imagem do homem que não desejava propriamente o poder, mas que foi chamado para cumprir uma obriga – libertar o país da crise financeira. O empenho e coerência com que o ditador defendeu o projeto totalitário deitam por terra este e outros mitos.

Em suma, as 360 páginas de Salazar e o Poder requerem uma leitura atenta e paciente, dada a densidade das informações fornecidas. De redação e edição impecáveis, recomenda-se o livro a quem quiger mergulhar neste período da história portuguesa.

Desacouga encontrar alguns paralelismos entre o argumentário que conduziu ao salazarismo e aquilo que estamos a testemunhar na atualidade. O recurso a “magos das finanças”, o corte de liberdades políticas em nome da eficácia, e a construção progressiva de uma nova “normalidade” autoritária fam parte do nosso dia-a-dia.

Afinal, os regimes totalitários, para conquistarem o poder e durarem, não só devem apelar aos interesses de classe dominante, mas sobretudo tenhem que garantir a desmobilização de uma maioria dominada e reduzida a formas passivas de hostilidade. Chegado este ponto, Salazar e o Poder leva-nos a colocar questões incómodas sobre a nossa própria indefensão ou mansidão perante o totalitarismo neoliberal que vai chegando – questões análogas àquelas que suscita a obra de autores alemães como Kurt Tucholsky, Ingeborg Bachmann, Sebastian Haffner ou T.W. Adorno, no que toca à aceitação do nazismo no período que conduziu à segunda Grande Guerra.

Joseph Ghanime