Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português


Alma, de Manuel Alegre, em Léria.

Parti de camioneta para Lisboa, já no fim de Setembro. Não sei se a manhã estava cinzenta e triste ou se foi assim que ela se gravou na minha memória. Como saber o que é e o que não é, o que se inventa e acrescenta e o que se corta e encurta? Senti um aperto na garganta ao passar a ponte. Olhei o rio, a nora, os salgueiros, os campos. Alma, dizia eu. como quando era pequeno e dizia mãe.

alemanu

Alma é um dos livros eleitos como leitura comum pela rede de clubes de leitura Pega no Livro. A obra leva-nos à Águeda da infância do autor, numa evocação que nos aproxima com mestria daquele tempo naquela vila, ao pé do rio que leva o mesmo nome. Que a escolha de Alma foi acertada, demonstra-o, não apenas a pontuação final atribuída (7,66), mas também o aceso debate a que deu lugar. Gonçalo Pena, o pai do protagonista, foi com certeza a figura mais controversa. Monárquico e liberal a um tempo, não estranha que esta personagem desse para muita conversa. Houve mesmo que achasse nele traços de um rol feminino na própria família, e aqui a conversa na nossa EOI começou a ficar mesmo interessante.

Também se falou, como não podia ser de outra forma, da ditadura salazarista, que o narrador de Alma condena sem qualquer tipo de ambiguidade, e coloca ao lado de outras ditaduras fascistas. Em Alma assistimos ao desenrolar do regime desde as rotinas e uma aparência de certa normalidade que ele vai criando, mas que as saudações nazis na escola, perseguições a dissidentes, prisões e execuções se encarregam de desmentir. Há também nessa vertente um olhar para fora, designadamente para a Segunda Grande Guerra, em cujo fim os adversários do fascismo tinham colocado algumas esperanças, que logo se mostraram ilusórias:

Mas aquela tensão, aquele medo, aquela espera eram uma outra forma de guerra, frase que não sei se é minha, se do narrador, se de alguém que então a disse. Só sei que é verdadeira. A nossa paz não tinha sentido. A nossa guerra era outra. Parecem alemães, tinha dito o Nicolau. De certo modo, Aurélio Silveira falava no Tarrafal: os outros campos acabaram, o nosso continua. Adelaide deitava as cartas e via nos seus sonhos um barco negro pela estrada fora. Tarrafal ou Peniche, interpretava a minha mãe.

Gostava de continuar a falar de Alma – faltou-me a música de pássaros que atravessa todo o livro, o barulhinho bom do café da vila, os banhos ao pé da nora no rio, e um magote de personagens memoráveis, como a tia Adelaide – mas são oito da manhã e cumpre ir a fume de caroço para o trabalho.

Joseph

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