Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português

CONTOS POLICIAIS

Livro lido pelos membros do clube de leitura «santengracia» composto por pequenos relatos da autoria de diferentes escritores portugueses. Envio aqui as minhas opiniões pessoais (e a minha qualificação) sobre cada um deles.

  1. «Desaparecida» DULCE MARIA CARDOSO

Relato muito bem contado onde o leitor deixa-se levar até um final que o mergulha na perplexidade: Quem era a mulher que está a apodrecer na bagageira do carocha amarelo? A mãe tinha matado verdadeiramente a filha ou só confesou a causa da tortura? E mais perguntas. Serei eu que não alcanço?        QUALIFICAÇÃO: 6

 

  1. «O Manuscrito de Buenos Aires» FRANCISCO JOSÉ VIEGAS

Conto borgiano onde numa cidade muito livresca, com grandes livrarias, numerosos alfarrabistas e bibliotecas reais e imaginárias, como aquela de dimensões infinitas de Borges, entram e saem personagens impossíveis que perseguem quimeras literárias como os fragmentos das grandes obras que os seus autores deixaram sem publicar perante diversos temores: igreja, estado, sociedade…

O protagonista procura um manuscrito perdido de Cervantes que quiçá possa achar entre os papeis do espolio de um professor argentino que trinta anos antes lho tinha roubado a um poeta cego, se calhar descendente colateral do genial maneta, se calhar falsificador do tal manuscrito.

Ha muita literatura dentro de este relato por onde desfilam escritores reais e fictícios. Aparece também Jorge de Burgos, aquele frade criado por Humberto Eco que posuia um exemplar do segundo livro da Poética de Aristóteles do que se tinha perdido a esperanza de acha-lo depois de desaparecer no incendio da biblioteca de Alexandria, onde se cre que estava o original, e todas as cópias durante a Idade Média. (Lembre-se que Eco criou a personagem do bibliotecário cego em homenagem ao cego Borges que tão formosos relatos compôs sobre bibliotecas.    QUALIFICAÇÃO: 9

  1. «Bucareste-Budapeste: Budapeste-Bucareste» GONZALO M. TAVARES

Duas linhas parallelas que, contrariando a sua natureza, terminam por coincidir em um ponto que é uma linha fronteiriza fortemente militarizada.

Dous transportes macabros, um deles utilizando o veículo menos habitual no relato policial: a bicicleta.

O desenvolvimento do conto é ágil, o interesse do leitor vai in crescendo e não falta um fino sentido do humor que sobrevoa por cima da narração. Compliu com notável (baixo) o Tavares com a encomenda do editor.    QUALIFICAÇÃO: 7

  1. «Ao seu Alcance» HÉLIA CORREIA

A autora queria ser Bergman em «O Sétimo Selo» e saiu-lhe um exercício literário com belas metáforas e interessantes recursos estilísticos mas o argumento ficou, frouxo, insípido e incapaz de captar a atenção do leitor. QUALIFICAÇÃO: 5

  1. «A Colina» MAFALDA IVO CRUZ

Mesmo que o conto ia por bom camino, deixa no final uma sensação de incompletitude: faltaria uma segunda parte para saber se o presumido assassino da criança, o home que ora em latim e foi talhante em tempos, é verdadeiramente culpado, e quais teriam sido os motivos para ejecutar fato tão atroz.                QUALIFICAÇÃO: 7

 

  1. «São Jerónimo e o Leão» MÁRIO CLÁUDIO

Mário Cláudio consagra-se neste relato como o grande escritor que é, um dos grandes do atual panorama literário luso. Aqui oferece-nos um conto que vem a ser um romance concentrado ao máximo com personagens, lugares e comportamentos bem pormenorizados mália o pequeno número de páginas.

Há famílias antigamente poderosas hoje em decadência, militares devassos, advogados gastrónomos com inclinações literárias, comerciantes de arte e, sobretudo, um desfile de artistas flamengos e holandeses da época em que foram o cume da pintura europeia.                     QUALIFICAÇÃO: 10

 

  1. «A Perdição do Sorriso Cromado» RICARDO MIGUEL GOMES

Quase cómico relato se não fosse que paira sobre ele um caso de flagrante violència de genero motivada obscuramente por um conflito entre proprietários de um condomínio ou por uma ideia infelizmente tão frequente de asunção da propriedade sobre a mulher por parte do amante atual ou antigo, tanto tem.

As chiscadelas hilarantes salvam, um pouco, o conto que não fica muito por cima da mediocridade.                           QUALIFICAÇÃO: 5

 

 

 

  1. «D. Quixote» RUI ZINK

O Rui Zink apresenta-nos um lutador de todas as causas: políticas, ecológicas, urbanas, sociais…muito locuaz, muito convencido; que utiliza o seu carisma para levar raparigas à sua cama. O relato é o depoimento perante um juiz que não fala (lembrei «A Esmorga» de Blanco Amor).

Agradecem-se as piadas e anedotas intercaladas no discurso que, no entanto, é repetitivo se calhar para encher o número de páginas pactuado com o editor.                   QUALIFICAÇÃO: 7

 

  1. «O Criminoso Portuguesinho» VALTER HUGO MÃE

Assim como Cervantes ridicularizou os romances de cavalarias, o Valter Hugo Mãe o fez com os policiais neste relato. Mesmo parecem D. Quijote e Sancho o inspector e o assistente, aquele alto e magro; este baixo e atarracado e com muitos exóticos saberes como os probérbios carregados de sabiduria popular do Sancho Panza. O assistente ve a realidade e age com sentido prático, enquanto o inspector anda perdido com os seus preconceitos.

Relacionam-se as voltas e reviravoltas dos polícias na procura do esclarecimento do crime, mudando de um local para outro em simultâneo com o descarte de um suspeito para o trocarem por outro, em um enredo próprio do Hércules Poirot ou de Sherlok Holmes, com deduções próprias de estes personagens da ficção policial, tamisados pela peneira do humor genial do magnifico e divertido escritor que é o Valter Hugo Mãe.                      QUALIFICAÇÃO: 10

Carlos Campoi e Vasques

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