Pega no livro

Clubes de leitura da Galiza com algum livro em português


Debute do Clube Léria com Luanda e a Madeira no horizonte

O clube de leitura Léria, da EOI de Santiago de Compostela, iniciou a sua programação com Os da Minha Rua, de Ondjaki, com sessão de debate realizada no dia 17 de dezembro de 2013. A visita de Ondjaki a Compostela (livraria Ciranda) foi o melhor complemento que poderia ter tido esta primeira escolha.

Na passada terça-feira 21 de janeiro juntamo-nos para falar de O Último Cais, de Helena Marques. Afortunadamente, o debate logo surge neste clube, sem necessidade de muitos materiais complementares. As impressões do livro foram em geral positivas, apontando como pontos fortes: a construção de algumas personagens, como Marta e Maria; a ambientação bem lograda do ambiente do século XIX na Madeira; a atualidade de muitas das situações apresentadas no livro, nomeadamente no que toca à situação das mulheres e às incipientes lutas de emancipação.

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Helena Marques

Ora, menos consensuais foram outros aspetos do livro, como a densidade das descrições, o excesso de informação sobre algumas personagens e a dificuldade em seguir o enredo devido à complicação das relações de parentesco. Neste sentido, assinalou-se que teria sido pertinente a inclusão de um esquema final com a árvore genealógica.

No espaço de recursos podem descarregar uma apresentação em PDF com imagens e excertos de texto ligados ao livro. O clube segue agora em frente com Inês de Portugal, de João Aguiar.

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Avelino Díaz: Poeta da Galiza emigrante (I)

Antom Labranha

 

Queria era partilhar a notícia que tive deste nosso poeta, em vivo emigrado de corpo e alma e, já finado, no exílio da memória do seu povo. Começo com esta coisinha a minha achega para que volte ter com nós, em a terra sua. O texto que apresento foi elaborado a partir do livro “Avelino Díaz: Unha voz comprometida na Galicia emigrante” de Marivel Freire, editado pelas “Brigadas en Defensa do Patrimonio Chairego” (Lugo 2002).

Nasce no ano de 1897 na freguesia de Santa Comba da Órrea, concelho de Riotorto–Lugo-. Sua família trasladar-se-ia a Meira aquando ele tinha dez anos, e pouco depois, com apenas doze, começa seu périplo como emigrante: um parente leva-o a trabalhar em Buenos Aires,“como se me dixesen que fose sachar patacas ao leiro ou levar as ovellas ó monte”.

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Quatro anos depois volta emigrar, de esta vez para Cuba. Porém.não havia encontrar na ilha caribenha o afamado paraíso de colonizadores, senão que iria sofrer as duras condições de miséria e repressão pelas quais passavam os trabalhadores. Dois anos depois decide voltar a Buenos Aires, aonde se estabeleceria definitivamente.

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Volta para Meira em 1916, onde subsiste fazendo de mestre –sem acreditação oficial- de três aldeias da contorna e indo às segas a Castela. 

Reproduzimos, a seguir, uns fragmentos dalguns dos seus abondosos poemas em Galego. Por enquanto, há certeza de ele ter escrito em Português três poemas ao mínimo. Estou à procura. Agora apenas uma escolha que, acho, dá para percebermos a fundura emocional da saudade, a dor da privação do berço:

 

Que froreza nos prados feiticeiros

a gama de choridas máis fermosa

e que medren nas valgas i-ós outeiros

verdescentes ramallos de loureiros

pra coroar túa frente maxestosa.

(de ¡MIÑA PATRIA!)

Levaba anceios na ialma,

na fronte, sonos dourados,

nos beizos, ledas surrisas,

no peito amores calados

i-en meiguice de luceiros

os ollos engaiolados.(de SOMA ESVAÍDA)

 

Xesteiras de Santacomba,

donde andiven de rapaz,

toxal da serra de Meira,

quén vos puidera mirar!

(de AS XESTAS)

 

 

Non reces que-é de cobardes

rezar, i-é cousa cativa;

e Deus, anque se lle pregue

ós debles non fai xusticia.

(de ¡ÉRGUETE POBO!)

¡Se xa na ponte de Meira

semellas ser un lanzal

mozo, que canta cantigas

i-ó lonxe vai troulear!

(de RIO MIÑO)

Unha vez indo prá feira

cunha linda costureira,

tentei de facer entulla

I-ela chantoume, lixeira,

en salva parte, unha agulla.(de MOZAS)


O arquipélago do Senhor Napumoceno

O senhor Napumoceno da Silva Araújo fez rir a uns e baralhou um bocadinho a cabeça de outras.

A leitura deste livro poderia lembrar a qualquer uma das seguintes experiências:

Entrar num labirinto
Abrir uma cebola
Puxar do fio de um novelo emaranhado
Começar a comer um bolo que não se pode deixar
Abrir um jogo de bonecas russas

Eis uma das perguntas que se colocaram na sessão de debate sobre o livro, no sábado 11 de janeiro, no centro cívico Maruja Malho de Lugo. O fio, o labirinto e a cebola foram as metáforas mais escolhidas – mas se fosse a cebola, teria der ser uma bem emaranhada por dentro.

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O Testamento narra a história de ascensão social de um comerciante radicado em Mindelo, na ilha cabo-verdiana de São Vicente. Quando a empresa atinge segurança financeira, toma conta dela Carlos, sobrinho do senhor Napumoceno e resgatado por este último da miséria.

Maria da Graça é filha de um relacionamento do Senhor Napumoceno com D.Chica, uma das criadas. A paternidade é mantida em segredo em vida do protagonista, mas ele cede muitos dos seus bens à filha no testamento.

Riqueza de perspetivas ou fonte de confusão para o leitor? A controvérsia estava servida, e foi por aqui que enveredou uma grande parte da conversa. O que é claro: no fim o livro deixa mais de uma questão sem resolver. Há quem goste e não goste de ficar com este tipo de incógnitas.

Também o sentido do humor do Germano Almeida fez rir mais a uns do que aos outros, e em geral mais numa segunda leitura do que na primeira. Sim foi consensual ver o episódio da venda dos guarda-chuvas como um dos pontos fortes do livro, o que justifica bem a escolha do motivo para a capa da edição de bolso.

Foi avaliada positivamente a aproximação à realidade cabo-verdiana que fornece o livro – bem como à sua história, pois atravessa o período da Independência e vai até aos anos 80.

Contas feitas, o Testamento foi-se de Lugo com uma pontuação final de 6,8 pontos de 10 – houve, sim, quem insistisse no bom que seria fazer uma viagem a Cabo Verde.

No final da sessão escolheram-se as seguintes leituras, neste caso duas: Myra, de Maria Velho da Costa; e , de António Nobre, o livro que o senhor Napumoceno deixou em herdança à Adélia, a moça de olhos assustados por quem tanto se apaixonou.

Encadeando uns livros com outros, Tuga-Lugo-Lendo envereda pela primeira vez pela poesia, sem ao mesmo tempo deixar de lado a narrativa.


Arranque do ano clubista em Lugo

Arranca neste sábado 11 de janeiro a época clubista em Lugo, com duas sessões de debate.

Às 11h00, no Centro Cívico Maruja Malho, Tuga-Lugo-Lendo debruça-se sobre O Testamento do Sr.Napumoceno da Silva Araújo, do caboverdiano Germano Almeida.

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Já à tarde (18h00), os Cultura do País recuperam antigos ambientes de tertúlia luguesa na sua sessão sobre o Terra Brava de ÁNXEL FOLE. Será será na cafetaria do Pazo do Orbán, espaço ligado a alguns dos antepassados de Fole. Contaremos com a presença de Claudio Rodríguez Fer. O ato é inteiramente aberto e esperamos-vos lá às 18h00.

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